Jardim dos Mestres

A Felicidade

A felicidade é um estado interno. É uma habilidade, a habilidade de saber viver, de não deixar que nada nos perturbe, pois tudo passa, tudo passa.

É possível sentir alegria e felicidade, mesmo quando as coisas não saem como esperamos. É possível sentir alegria pelo sucesso e felicidade do outro e se isso não acontece, é porque há algo errado, é porque existe em nós inveja, raiva.

Quando experimentamos sensações de liberdade, paz e felicidade, não devemos pensar que elas vieram do exterior. Da mesma forma, não podemos achar que algum estímulo externo desencadeou o que está errado em nossos corações e mente. O externo é pouco confiável e está fora de nosso controle, e depender de algo pouco confiável não é uma atitude inteligente.

Quando a mente está limpa e tranquila, atenta, livre da agitação causada por nossos próprios defeitos, a felicidade e a paz surgem naturalmente. Nesses breves momentos, podemos compreender que a verdadeira paz e a felicidade são de fato possíveis.

Para sermos felizes não precisamos fazer nada. Precisamos apenas parar de gerar infelicidade e de criar problemas. Gostamos de criar problemas porque no fundo eles distraem a mente e nos dão o que fazer. É uma forma de fugir do tédio, da vida. De certa forma, chegamos a sentir prazer em vivê-los e até  nos vangloriamos de nossos problemas.

As causas reais da infelicidade não estão na ausência de pessoas, dinheiro, casa, carro ou emprego. As causas reais estão dentro, e não fora de nós mesmos. A infelicidade é fruto de nossa ganância, avareza, orgulho, vaidade e inveja. É fruto de nossa falta de contentamento, satisfação e gratidão.

A felicidade não é e nem está em algum objeto a ser encontrado ou possuído, não está em nenhum lugar fora de nós mesmos. Não há lugar nenhum para ir, não há nada a fazer e nem a ser conquistado a fim de se alcançar a felicidade. Felicidade é um estado interno, é satisfação, é contentamento com o que está ocorrendo no momento presente.

Não podemos confundir prazer com felicidade. O prazer é do tempo, é passageiro, momentâneo, impermanente, fugaz. Contudo, estamos sempre querendo mais prazer, como se tentássemos de alguma forma, eternizar o que é efêmero.

Renunciar ao prazer para obter a verdadeira felicidade é uma atitude inteligente. O prazer e a busca do prazer não trazem sabedoria; trazem apenas dor e sofrimento. O prazer escraviza, aprisiona. Na ânsia de se obter prazer ou temendo não obtê-lo, nos tornamos cada vez mais luxuriosos, gulosos, gananciosos e invejosos.

Normalmente, todos correm atrás de divertimento e entretenimento, chamando a isto de alegria, mas na realidade as diversões e o lazer não passam de artifícios para distrair e entorpecer a mente, não passam de uma tentativa de fuga de si mesmo, de uma tentativa desesperada de esquecer as preocupações, os medos, a infelicidade, a ansiedade e de fazer com que a mente pare de atormentar, de torturar.

Esta fuga, esta tentativa de esquecer, esconder e sufocar nossos sofrimentos leva apenas a uma necessidade cada vez maior de novos e diferentes divertimentos e entretenimentos. Nenhuma sabedoria será alcançada desta forma.

Todos querem ser felizes, mas ninguém é feliz. Na busca da felicidade alguns ultrapassam os limites, causando dor e sofrimento ao próximo. Mas é impossível obter a verdadeira felicidade à custa da infelicidade alheia.

Perdemos nosso tempo e nossas vidas atrás de prazer, riqueza, fama, sucesso, status, títulos, atrás de uma felicidade ilusória. Tentamos sempre preencher o vazio interno com algo externo. Fascinamo-nos com possibilidades ilusórias de felicidade, depositando nelas nossas esperanças e no fim nos frustramos.

Quando persistimos em viver uma situação que nos traz infelicidade e sofrimento, é porque de alguma forma estamos obtendo algum prazer com isso, ou porque estamos sendo movidos pela expectativa e pela esperança de prazeres futuros. Ninguém insiste em permanecer em situações que não tragam ou não venham a trazer algum benefício, por mais ilusório que seja o benefício e o prazer.

É a expectativa e a esperança, que não nos deixam parar de sofrer.  Obstinadamente, acreditamos que um dia tudo há de dar certo, e que neste dia tudo terá valido a pena.

A dor de deixar uma situação de sofrimento e infelicidade é na verdade a dor da sensação de perda da possibilidade de experimentar uma sensação de prazer – seja um prazer que efetivamente ocorre ou uma simples promessa, uma expectativa de prazer futuro.

A esperança é a crença de que algo pode acontecer. É a espera de que uma possibilidade possa vir a se tomar realidade. Isso causa sofrimento e deve ser renunciado, é preciso renunciar à esperança do amanhã para que o hoje seja possível.

Vivemos em busca de mais, sempre mais, sempre na esperança, na expectativa de um dia conseguir alcançar esse mais, como se alguma coisa estivesse faltando, mas é somente renunciando a tudo isso que a verdadeira felicidade se torna possível. A satisfação e o contentamento surgem diante da percepção de que nada falta. Não há nada a ser conquistado; há, sim, muito a ser renunciar.

Ninguém quer parar para refletir e analisar o porquê dessa procura insaciável por prazer e de tudo o que se esconde por trás dela. Ninguém quer olhar para sua infelicidade. Entretanto, somente aceitando nosso sofrimento, nossa infelicidade e miséria é que podemos mudar. Enquanto continuamos a negar, a não aceitar, a esconder nossa realidade, nenhuma mudança será possível.

A busca por riqueza, fama, sucesso, status, títulos e a luta para ser “alguém”, não nos levará à felicidade. Tais ambições e motivações, só nos levam à competição, inveja, cobiça, frustração, mágoa e tristeza. As pessoas vivem atormentadas e torturadas por suas mentes, por seus próprios desejos. Somos nós mesmos que nos atormentamos, somos nós mesmos que criamos e sustentamos nosso sofrimento, nossa infelicidade.

Não podemos criar condições para felicidade. Estabelecer condições para sermos felizes é gerar sofrimento, é criar situações para não sermos felizes, é criar justificativas para a nossa incapacidade de gerar e manter um estado pleno de felicidade, contentamento, satisfação e gratidão. Somos nós que criamos a nossa própria infelicidade, não há nada de errado com a vida ou com as situações e condições que ela nos impõe.

Precisamos estar felizes agora, com as condições que realmente temos, com as situações que se apresentam diante de nós. A felicidade amanhã nunca acontecerá, sempre haverá um amanhã. É preciso renunciar à possibilidade de felicidade amanhã para que possamos sentir a felicidade agora, no momento presente, em que tudo é possível e nada falta.

Não devemos buscar a felicidade nos grandes eventos de um futuro imaginado. Devemos buscar a felicidade onde ela está: no aqui e agora. No momento presente nada falta, a falta só passa a existir quando olhamos para o futuro ou para o passado. A felicidade, o contentamento, a satisfação e a gratidão estão no momento presente, no aqui e agora.

Para sermos verdadeiramente felizes, precisamos eliminar de nossos próprios corações e mentes as causas da infelicidade. Porém, nunca estamos dispostos a fazer o esforço necessário. Queremos eliminar diretamente a própria infelicidade, sem nos preocuparmos com suas causas. Entretanto, é impossível eliminar a infelicidade sem analisar, sem investigar sua origem. Se realmente queremos ser felizes, precisamos passar a trabalhar firmemente sobre nós mesmos, conhecer e reconhecer as causas de nossos tormentos e então renunciar a elas, abandoná-los, eliminá-los.


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