Jardim dos Mestres

A Oração

Dizia Santa Tereza de Ávila  que “quando uma alma decide orar já tudo está feito”.  A oração é o fundamento de toda prática religiosa, é a prática fundamental do caminho espiritual. Orar é conversar com Deus. A oração é um caminho de purificação e comunhão com Deus. A oração é o alimento da alma; sem ela a alma está morta. A oração não pertence à religião nenhuma, é comum a todas as religiões.

Na época de Santa Teresa de Ávila, época de inquisição, os livros místicos, os livros que falavam de oração, de meditação e outras práticas espirituais, foram proibidos, confiscados e destruídos pelos inquisidores e o clero reservou para si o privilégio da oração e das demais práticas espirituais. Os poucos livros cristãos que atravessaram estes períodos são praticamente desconhecidos.

O desconhecimento e o preconceito religioso têm impedido que muitas pessoas se beneficiem da oração, da meditação e de outras práticas espirituais .

De modo geral, as pessoas não conhecem as grandes obras que falam sobre oração, nem sabem orar; contentam-se em dizer uma oração como o Pai Nosso de maneira fria e indiferente. Oram sem sentimento, sem emoção; oram mecanicamente, por costume, por terem ouvido que é bom orar.

A oração sem distração é a mais elevada aplicação do intelecto. Se a mente vaga distraída, a oração torna-se fria e seus resultados não são sentidos. O estado de oração surge depois do estado de atenção. Quando a mente se consagra à oração com ardor e pureza, o coração se regozija. Mas se não conseguirmos nos recolher nos momentos reservados para as práticas espirituais, também não vamos conseguir nos recolher em outros momentos da vida.

Quando dois ou mais estiverem reunidos em oração, quando a mente e o coração estiverem voltados para oração, a Divindade estará presente. (cf. Mt 18:19-20)

Não se deve descuidar da memória, pois ela nos traz recordações, preocupações, fantasias, ressentimentos e nos leva à distração, à dispersão. A distração ocorre por causa do apego aos objetos de prazer, as preocupações deixam a mente presa e incapaz de orar. A alma não poderá orar com pureza e voar para Deus se a mente estiver presa a assuntos materiais e agitada pelas preocupações. A mente não pode desviar-se por mais belo e nobre que seja o pensamento ou a imagem que possam vir a aparecer. Bem-aventurado é aquele cuja mente alcançou a perfeita não identificação com as coisas do mundo durante a oração.

Aquele que vai buscar a oração deve preparar-se para os ataques dos demônios internos, pois eles querem que abandonemos a oração, não querem que façamos práticas, por isso fazem com que nos percamos na oração, esqueçamos partes, erremos frases, fiquemos repetindo a mesma parte sem conseguir ir adiante. Não podemos desanimar, precisamos ter paciência, firmeza, persistência. Sempre que a mente vagar, que a atenção se desviar, devemos começar novamente, com tranquilidade, sem culpa, sem derrotismo. Assim, estaremos utilizando as adversidades para nos fortalecer.

Não existe oração verdadeira sem invocação interior, sem atenção e concentração, sem sentimento e emoção, sem fervor e devoção. A oração é verdadeira quando é acompanhada de fatos, obras, mortificação , intenso trabalho sobre si mesmo e ação reta. É muito poderosa a oração daqueles que trabalham seriamente sobre si e servem a Deus.

Se buscarmos o caminho da oração e seguirmos indiferentes à nossa conduta, não avançaremos espiritualmente. É preciso grande determinação em mudar, é preciso evitar situações, negar a si mesmo, negar alimento aos egos. A ignorância e a inconsciência levam a uma conduta atormentada, devemos buscar a paz da conduta reta.

Existem dois modos de oração – um é o ativo e outro o contemplativo. A oração é a elevação da alma a Deus, é a mais divina das virtudes.

A oração não é feita somente de arrependimento, contrição, súplicas, mas também de louvores, bendições, adorações. A oração nos dá força interior, suaviza a dureza, enternece, purifica o coração das emoções negativas, humaniza-nos, auxilia-nos a perceber os outros, leva-nos a entender o que é amar a Deus.

A serenidade e oração estão unidas. A oração é fruto da doçura, do contentamento, da gratidão e da ausência de ira, pois a ira nubla a mente, destrói o estado de oração. Então ficamos incapazes de nos lembrar de Deus. Para orar, devemos eliminar verdadeiramente todo pensamento passional.

Nos momentos de sofrimento, quando temos grandes necessidades, quando tememos por alguma pessoa pela qual temos apego, quando perdemos alguém, é que nossas orações ganham força; é nesses momentos que oramos com intensidade e alcançamos a devoção, o fervor. Infelizmente, quando o sofrimento termina, o fervor termina junto e a oração esfria.

Quando chegamos ao estado de oração, não podemos negligenciá-lo, não podemos deixar que a oração esfrie, enfraqueça. O dom da oração é uma grande graça concedida pela Divina Mãe, que não nega suas graças a quem a busca com sinceridade e perseverança.

É importante ressaltar que, quando chegamos ao estado de oração não podemos envaidecer-nos, não podemos cair no erro de acreditar que não corremos mais risco algum. O devoto prudente e humilde chora constantemente seus erros, teme os castigos futuros, o inferno, teme afastar-se novamente de Deus.

Devemos aprender a orar sem receitas, sem fórmulas prontas, é assim que se chega à verdadeira oração. Devemos aprender a fazer orações discursivas, a conversar com Deus, falar de nossas necessidades, confessar nossos erros, dificuldades, limitações, pedir ajuda, suplicar por purificação de nossos pensamentos, sentimentos, emoções, paixões; suplicar por autoconhecimento, virtudes, aperfeiçoamento, iluminação, pela compreensão de nossos defeitos. Devemos, também, expressar nossa gratidão, agradecer pelas graças recebidas, pelas bênçãos.

Existem pessoas que têm facilidade para fazer orações discursivas e outras que tem grande dificuldade. É necessário um maior esforço na oração discursiva para que o pensamento não se desvie, pois a mente pode dispersar-se na busca de palavras. As pessoas que têm dificuldade para fazer orações discursivas, podem fazer orações curtas ou até mesmo utilizar fórmulas. Porém, se forem utilizar fórmulas, devem estar muito atentas e sentir profundamente o significado de cada palavra.

Quem está começando a fazer orações, quem está aprendendo a orar, ou quem têm dificuldades para fazer orações discursivas, pode e deve utilizar como inspiração  os Salmos, as orações de Jacob Boehme , Santa Teresa de Ávila, São João da Cruz , ou São Francisco de Assis , etc.

Aqueles que têm dificuldade para se interiorizar, para deixar a mente preparada para oração, devem procurar algo que os auxilie, algo como ler um trecho de um livro inspirador, contemplar uma bela paisagem, uma imagem inspiradora, uma imagem de Jesus, Krishna, Buda, Durga, Nossa Senhora, etc. Pode também preparar o ambiente, acender uma vela, um incenso, pode ainda fazer uma prática de cantos devocionais. Mas nada disso pode se tornar o principal, o objetivo final. As práticas não podem ser apenas exteriores.

A oração deve ser feita com simplicidade, com o coração, sem intelectualismo, sem buscar palavras extravagantes, sem usar palavrório inútil, sem ser prolixo. Quem tem maior erudição pode fazer orações com mais elegância e eloqüência do que as pessoas mais simples; porém, não está na elegância ou na eloqüência das palavras a questão da oração.

O abuso do pensamento leva à fantasia e à dispersão. A simplicidade ajuda a concentração. Quando chegamos à satisfação ou à contrição, devemos ficar com estes pensamentos. Quando surgirem as lágrimas, devemos ficar com elas e não buscar muitos pensamentos, pois isso pode fazer a oração esfriar.

Na oração chegamos a compreensões que de outra forma levariam muito tempo para se dar. Alguns dos frutos da oração são: lágrimas, contrição, humildade, temperança, silêncio, paciência, serenidade, solidão, gratidão, felicidade, contentamento, paz. O estado místico, o estado de comunhão com Deus, também é um dos frutos da oração. Devemos suplicar por ele constantemente. Se a oração for verdadeira sempre se sairá dela iluminado, ou purificado, ou aliviado. Contudo, se os frutos não vêm é porque a qualidade de nossas orações é baixa, falta atenção, concentração, sinceridade, devoção, reverencia, fervor, intensidade.

Não se chega aos frutos da oração de forma instantânea, este é um processo gradual, é preciso paciência, constância, persistência. Primeiro, as paixões diminuem sua influência, pois a oração fervorosa consome as paixões. Assim, algum espaço é aberto no coração, que é purificado pelas lágrimas e começa a conhecer o amor verdadeiro e, em seguida, começa ter sede por compunção, paz, felicidade e a desejar ardentemente a reconciliação com o divino.

Temos o hábito de nos lembrar das emoções negativas, dos estados equivocados e por isso reagimos sempre da mesma forma. Quando a mente é obscurecida por nossos defeitos, esquecemos de nossas meditações, esquecemos de nossos melhores propósitos.

Não suplicamos pela ajuda divina na eminência do delito por causa de nossa auto-suficiência. Precisamos criar o habito de orar, suplicar, invocar a Deus nos momentos de tentação, de provações, nas situações de perigo, de risco de erros graves.

Devemos aprender a tirar proveito das tentações, meditando, refletindo, pedindo a Deus que nos ilumine, que nos dê a compreensão de nossos defeitos e os elimine. Por vezes, pode ser que Deus permita que as tentações continuem para que a alma cresça em virtudes, por isso precisamos sempre pedir força e paciência para poder suportar as tentações. Fé é certeza, é confiança. Quem ora tem que confiar que Deus fará a melhor coisa no melhor momento.

O devoto busca refúgio na “santa oração” , pois ela tranqüiliza o coração e nos dá disposição para pensarmos em coisas boas, divinas e não mais em coisas más ou mundanas e, assim, podemos passar a agir com retidão.

Contudo, a verdadeira virtude não consiste em permanecermos serenos por estarmos recebendo os benefícios da oração. Mas, sim, em estarmos serenos, cheios de contentamento e gratidão em meio às obrigações do dia a dia.


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