Jardim dos Mestres

A Perfeita Alegria

Certa vez, no tempo do inverno, São Francisco vinha com Frei Leão de Perúgia para Santa Maria dos Anjos, e o frio atormentava-o acerbamente. Chamou Frei Leão, que caminhava um pouco à frente dele e disse: “Ó Frei Leão, ainda que os frades menores dêem em toda a terra um grande exemplo de santidade e de boa edificação, escreve, não estaria aí a perfeita alegria”.

Caminharam mais um pouco e o Santo chamou-o novamente, dizendo: “Ó Frei Leão, ainda que o frade menor cure cegos, endireite os encurvados, expulse os demônios, devolva o ouvido aos surdos, o andar aos coxos e a palavra aos mudos e, o que ainda é maior, ressuscite mortos de quatro dias (cf. Mt 11:4), escreve que aí não está a perfeita alegria”.

Chamando-o novamente mais adiante, disse: “Ó Frei Leão, se o frade menor soubesse todas as línguas, todas as ciências e escrituras, de maneira que soubesse até profetizar (cf. 1Cor 13:2) e revelar não só as coisas futuras mas até as consciências dos outros, escreve que aí não estaria a perfeita alegria”.

Continuaram a caminhar e algum tempo depois chamou novamente: “Ó Frei Leão, ovelhinha de Deus, mesmo que o frade menor falasse a língua dos anjos (cf. 1Cor 13:2), e conhecesse o caminho das estrelas e as virtudes das ervas, e lhe fossem revelados todos os tesouros das terras; e conhecesse as virtudes das aves e dos peixes e dos animais, dos homens e das árvores, das raízes, das pedras e das águas, escreve, escreve que aí não estaria a perfeita alegria”.

Pouco depois, clamou: “Ó Frei Leão, ainda que o frade menor soubesse pregar tão solenemente que convertesse todos os infiéis para a fé, escreve que não estaria aí a perfeita alegria”.

E esse modo de falar durou por bem umas duas milhas. Então, Frei Leão, muito admirado com tudo isso, disse: “Pai, eu te peço da parte de Deus que me digas onde está a perfeita alegria”.

Respondeu o Santo: “Quando chegarmos a Santa Maria dos Anjos tão molhados de chuva e congelados de frio, sujos de barro e aflitos de fome, e batermos na porta do lugar, e o porteiro vier irado, dizendo: “Quem sois vós?” e nós dissermos: “Somos dois dos vossos frades”. E ele, ao invés, disser: “Vós sois dois velhacos, que dais voltas pelo mundo roubando as esmolas dos pobres!”. E não nos abrir a porta, mas nos fizer ficar na neve e na água, no frio e na fome até de noite. Então, se suportarmos pacientemente as injúrias e repulsas, sem nos perturbar e sem murmurar, e pensarmos humilde e caridosamente que o porteiro nos conhece de verdade, e que é Deus que está excitando a língua dele contra nós, ó Frei Leão, escreve que aí está a perfeita alegria. E se nós continuarmos a bater e o porteiro, ficar perturbado como se fôssemos importunos, sair e nos pegar a tapas com muita dureza, dizendo: “Ide embora daqui, poltrões ordinários, ide para o hospital. Pois quem sois vós? Aqui não comereis de modo algum!”. E se nós suportarmos tudo isso com alegria e recebermos as injúrias com amor de todo coração: ó Frei Leão, escreve que aí está a perfeita alegria.

E se nós, atormentados por todo lado com a fome apertando, o frio afligindo, e ainda mais aproximando-se a noite, batermos, chamarmos e continuarmos a chorar para que nos abra, e ele, afinal, ainda mais arrebatado, disser: “São homens muito atrevidos e impudentes: vou acalmá-los!”.

E sair com um porrete cheio de nós, agarrando-nos pelo capuz e nos jogando na neve e na lama, batendo-nos tanto com o cacete a ponto de nos encher de feridas, se suportarmos com alegria tantos males, tantas injúrias e pancadas, lembrando que devemos tolerar as penas de Cristo bendito, ó Frei Leão, escreve, escreve que aí está a perfeita alegria.


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