Jardim dos Mestres

Como Desenvolver Interesse pela Concentração

As crianças têm interesse por tudo, elas se assombram com o novo de cada instante, estão atentas e abertas para aprender. Conforme ficamos mais velhos, porém, parece que as coisas vão se tornando tediosas, desinteressantes, insatisfatórias, e por isso a mente fica vagando distraída, fazendo ou buscando algo que lhe agrade. Assim, passamos a agir distraidamente. Na realidade, nem sabemos direito o que estamos fazendo e com que finalidade.

Estamos sempre aprendendo, por mais idade que tenhamos, sempre existe o que aprender. A questão é se estamos abertos ou fechados ao aprendizado, se estamos facilitando ou impedindo este processo.

Normalmente, evitamos fazer aquilo que não nos desperta interesse, que não queremos, que não desejamos. Por isso é importante desenvolver o interesse pela concentração, do contrário, não a praticaremos, não iremos nos esforçar em desenvolvê-la.

Enquanto estivermos cheios de preocupações, desejos e paixões será bem mais difícil conseguirmos manter a concentração.

O descontentamento, a insatisfação, a tristeza, a frustração, surgem de nossa falta de interesse pelas situações, surgem por acharmos que as situações simples, comuns, são inúteis, sem importância e não merecem nossa atenção, nosso esforço, empenho, nossa vontade.

No início, o treinamento da concentração pode ser um tanto desagradável, monótono, aborrecido e podemos nos sentir um tanto restringidos, coagidos, pois estamos acostumados a seguir nossos instintos, impulsos, desejos, estamos acostumados a deixar a mente solta, descontrolada. Não estamos acostumados a manter a tranquilidade.

A concentração no momento presente, no aqui e agora, elimina a preocupação, nos traz tranquilidade e nos ajuda a perceber o novo de cada instante. Se estivermos atentos, qualquer coisa pode nos trazer um novo insight, uma nova compreensão, um novo aprendizado. É a concentração que possibilita o insight e é através dela que podemos ter acesso aos estados de paz e tranquilidade, ao êxtase.

É a atenção que nos possibilita o autocontrole. Quando a atenção está um pouco mais desenvolvida podemos manter o autocontrole mesmo numa situação de stress, de grande pressão, mesmo se fortes emoções negativas estiverem surgindo dentro de nós.

Para desenvolvermos a concentração, devemos buscar exercícios com os quais tenhamos alguma afinidade, pois cada um tende a se familiarizar com um tipo de exercício, segundo a sua idiossincrasia. No início de sua vida espiritual, como tinha dificuldades para concentrar-se, Santa Teresa de Ávila[2],  antes de iniciar suas orações[3], lia trechos de um livro ou contemplava paisagens, para ela esta era a melhor forma.

No início do treino de concentração é melhor utilizarmos objetos mais concretos. Manter a atenção em objetos mentais é mais difícil e esta dificuldade pode levar à frustração, ao desânimo.

Para dirigir a atenção é necessário esforço, empenho, vontade. Nós damos atenção àquilo que temos interesse, por isso, no início do treino, é melhor buscarmos um objeto agradável para utilizarmos como suporte para a concentração. É mais fácil mantermos a atenção quando o objeto é agradável, pois o que é agradável desperta o nosso interesse. Quando nossa vontade for forte, quando nossa vontade estiver desenvolvida, então conseguiremos manter a atenção mesmo se o objeto for desagradável, mesmo se a situação for desagradável.

A concentração também nos ajuda no desenvolvimento material, pois quem possui alguma capacidade de concentração rende mais no trabalho, produz mais em menos tempo, tem boa memória, é mais assertivo, preciso, eficiente, organizado, calmo. Portanto, é bom nos mantermos concentrados em nossos trabalhos, em nossas tarefas diárias. Não devemos desprezar as tarefas e nem fazer nada às pressas. A falta de atenção leva ao erro e ao fracasso. Uma mente sem concentração é agitada, inquieta, vaga, perdida, sem objetivo, sem foco.

A observação do fenômeno do surgimento e da cessação da concentração nos possibilita compreender o processo de causa e efeito por trás da concentração, e assim podemos passar a gerar este estado pela vontade. Desta forma, também poderemos compreender o surgimento e a cessação de outros fenômenos da mente. A concentração é o sinal de uma vontade desenvolvida.


[2] Santa Teresa de Ávila ou Santa Teresa de Jesus, nasceu em Gotarrendura, na Espanha, a 28 de março de 1515 e faleceu, abandonou o corpo em estado de êxtase, no Convento Carmelita Reformado de Alba de Tormes, também na Espanha, a 4 de outubro de 1582. Seu nome de batismo era Teresa de Ahumada e Cepeda. Grande mística, ela é muito conhecida por seus êxtases. Deixou várias obras importantes e é reconhecida como Doutora da Igreja. Sua importância também está relacionada com a Reforma da Ordem Carmelita. Aos 20 anos, quando entrou para vida religiosa escolheu a Ordem das Carmelitas, que havia caído no relaxamento da Regra. Vinte e cinco anos mais tarde, junto com algumas irmãs, ela inicia a Reforma, o retorno à austeridade da Regra Primitiva, funda o Convento de São José de Ávila e a Ordem das Carmelitas Descalças. Esta foi a primeira Fundação e o começo da Reforma.

[3] Orar é uma forma de meditar.


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