Jardim dos Mestres

Como Desenvolver Sabedoria

Vivemos na ignorância, desconhecemos a realidade, as possibilidades, não acreditamos que podemos viver sem mágoas e ressentimentos, que podemos deixar de sentir raiva, ciúme, medo, angústia, que podemos deixar de sofrer.

Visualizações de luz e cores não podem nos transformar. Manter apenas a atenção num objeto não vai trazer sabedoria. A habilidade de concentrar-se, desenvolvida em outras práticas, deve ser aplicada no desenvolvimento do autoconhecimento.

A meditação analítica ou reflexiva é uma prática investigativa que visa compreender algo, perceber a realidade, captar o significado de algo. Este algo é o objeto da meditação, o tema. Meditação é o fluxo constante de pensamento dirigido a um tema.

O principal objetivo aqui é o autoconhecimento, por isso os objetos são nossas ideias, sentimentos, emoções, sensações e também podem ser cenas de nosso dia-a-dia, nossos gostos e desgostos, desejos e repulsas, nossas fraquezas e limitações, nossas ações e reações, nossos hábitos e costumes, comportamentos, defeitos e virtudes.

As ideias da doutrina como projeção, identificação, auto-observação, impressões, representações, impermanência, papéis, também devem ser utilizadas como objetos de meditação para que possamos aprofundar nossa compreensão sobre elas.

Temas como sofrimento, envelhecimento, morte, fama, status, natureza, vida, pobreza e riqueza, relacionamentos, também devem ser utilizados como objetos de meditação.

No Budismo esta técnica é chamada de vipassana, em Pali. A palavra vipassana indica visão superior, correta, clara. O entendimento correto é a visão. O entendimento correto elimina as dúvidas e precede a ação correta. No Budismo tibetano esta técnica é chamada de lhaktong.

Esta é uma prática reflexiva, portanto, o intelecto é utilizado. Nela fazemos uso do pensamento analítico e profundo, do pensamento dirigido. Para tanto, precisamos aprender a guiar o pensamento para um assunto e mantê-lo, sem distrações. Com a mente focada, dirigida, podemos, aos poucos, ir reconhecendo e eliminando tudo aquilo que nos causa dor e sofrimento. Quanto maior for a concentração, mais profundo e penetrante será o pensamento.

Uma sessão desta meditação é um intenso e profundo estudo de si mesmo, da realidade e da doutrina. Devemos fazer nossa parte, criar condições para que as compreensões possam surgir e quando surgirem, não devemos continuar a refletir, devemos apenas ficar com a experiência até que ela cesse.

O insight não surge da mera curiosidade, mas sim da forte intenção de compreensão.

A meditação analítica visa transformar o inconsciente em consciente, o conhecimento em compreensão, sabedoria. O objetivo da meditação analítica é desenvolver inteligência, clareza, poder de análise, criatividade, compreensão, sabedoria.

Com a meditação reflexiva podemos eliminar nossos defeitos, dúvidas, conceitos superficiais, ideias vagas, confusas e podemos desenvolver a capacidade de reflexão, o pensamento objetivo, profundo, penetrante, analítico, investigativo, a clareza das ideias, a profundidade dos conceitos. Esta habilidade também poderá ser aplicada à vida comum e com isso nos tornaremos melhores profissionais ou estudantes.

No passado, esta técnica só era ensinada após as pessoas terem adquirido certa tranquilidade, não era transmitida àqueles cuja mente ainda não estivesse preparada.

Para que tenhamos bons resultados com este tipo de meditação, precisamos de ideias novas, precisamos de uma doutrina confiável, como a Gnose, ensinada por Samael Aun Weor. Uma doutrina não é apenas um conjunto de conceitos éticos e morais. A doutrina leva a uma percepção mais completa e profunda, pois traz novas ideias, novos paradigmas. O estudo da doutrina também é importante porque traz inspiração.

Se formos nos analisar a partir de nossas próprias ideias, nunca mudaremos, ficaremos andando em círculos, presos as nossas percepções limitadas e condicionadas. É importante que nos coloquemos no lugar dos outros, que vejamos as situações por outros pontos de vista. Se formos analisar as cenas de nosso dia-a-dia a partir de nossas próprias ideias, sempre acharemos que tivemos razão em nosso comportamento, sempre acharemos uma boa justificativa para nossos erros. A lógica faz com que nossas justificativas e explicações pareçam concretas, verdadeiras. Nossa percepção e nossos pensamentos, conceitos, opiniões e condicionamentos apoiam-se mutuamente, confirmam-se.

Nas meditações sobre nossos defeitos psicológicos, devemos aplicar as compreensões que tivermos sobre as ideias da doutrina. As situações precisam ser analisadas segundo as ideias da doutrina, segundo valores sagrados e transcendentais, e não segundo as ideias do mundo. Mais tarde, passaremos a percebê-las conforme as ideias da doutrina.

Para progredirmos nesta prática precisamos ser muito sinceros e exigentes conosco mesmos. Precisamos deixar de culpar os outros por tudo que ocorre e assumir a responsabilidade por nossos erros, limitações, emoções negativas, defeitos, vícios e maus hábitos.

Sinais de tristeza, depressão, mostram que nossas compreensões estão incompletas, superficiais ou até mesmo equivocadas. A meditação reflexiva traz clareza, compreensão, desapego, tranquilidade.

A clareza com que percebemos as coisas depende do grau de identificação. Quando estamos na prática formal, com concentração e tranquilidade, podemos dirigir a mente e obter um pouco mais de clareza, de modo a perceber a realidade das situações e as suas sutilezas.

Na análise reflexiva, podemos utilizar várias técnicas, dentre elas a análise dos opostos, a análise das contradições e o estudo das analogias.

Uma outra técnica utilizada é a de se questionar. Funciona quase como se estivéssemos dialogando conosco mesmos. Consiste em fazer perguntas como: “Por que senti isso?”; “Por que penso desta forma e não de outra?”; “O que realmente senti?”; “Por que reagi desta forma?”; “Por que não agir de forma diferente?”. Esta técnica é muito interessante, por vários motivos: a) ao nos questionarmos, rompemos com os nossos padrões de pensamento; b) as respostas podem nos levar a perceber nossa maneira equivocada de pensar e sentir; c) aos poucos, vamos nos acostumando a nos questionar, e levamos isso para a vida, passando a vivê-la de maneira mais reflexiva. O questionamento e a reflexão levam à sabedoria, à compreensão.

É comum a meditação reflexiva assumir a forma de uma palestra ou um debate, como se estivéssemos explicando algo para nós mesmos, ou para os outros. Isso ocorre naturalmente, não deve ser forçado.

Atualmente não questionamos nossas percepções, pensamentos, sentimentos, sensações, emoções, impressões. Cremos que tudo é concreto, real, verdadeiro, que sempre existiu e que independe de nossa percepção e das histórias de nossas mentes.

Vivemos numa condição ilusória, alheios à realidade das coisas, fascinados. Nossas percepções são subjetivas. Vemos as coisas como se possuíssem uma habilidade ou qualidade inerente, capaz de nos satisfazer, de causar felicidade ou sofrimento.

Gradualmente, esta técnica nos levará à percepção da realidade, sem ilusões, condicionamentos, fantasias. Mas, antes de percebermos a realidade, precisamos perceber nossos erros, conceitos equivocados, padrões, gostos e desgostos, desejos e repulsas, fraquezas e limitações.

Meditar sobre as nossas ilusões, fantasias, equívocos, entendimentos errados, mudanças de opinião, ajuda a diminuir a tendência que temos de perceber tudo como concreto, real, verdadeiro e de nos identificarmos com os nossos pensamentos, sentimentos, emoções, percepções, impressões.

Não devemos agir sempre de forma tão automática, mecânica, impulsiva. Devemos refletir, questionar a veracidade e a concretude de tudo isso e lembrar que são apenas projeções, que dependem de acreditarmos, de darmos importância a elas, seja alimentando ou rejeitando.

O processo de reflexão, análise e investigação deve ser repetido para tudo que quisermos compreender. É importante observar que não se compreende nada numa meditação breve, podem ser necessários muitos dias de meditação profunda até que uma compreensão se dê, ou comece a se dar. A purificação do coração e da mente é gradual. A sabedoria não surge por acaso, é resultado de constantes e persistentes esforços.

A meditação reflexiva não é uma técnica de terapia ou uma teoria de autoajuda. Não é uma técnica de reprogramação, é um método que leva à libertação de programas, conceitos, condicionamentos. O objetivo desta técnica de meditação não é esconder o sofrimento para que ele não nos perturbe, mas sim eliminar as causas que dão origem a todos os tipos de sofrimento que nos impedem de experimentar a verdadeira felicidade.

Esta não é uma técnica para conceituar, rotular, criar histórias ou buscar explicações para justificar nossos erros, defeitos, medos, fraquezas, limitações. Quanto mais nos envolvemos em histórias, mais longe ficamos da compreensão. Os fatos são vazios de histórias.

Somente a meditação possibilita a verdadeira transformação. O objetivo da meditação é despertar cada um para sua própria realidade interior, revalorizar, criar novas bases, eliminar velhas bases e derrubar o que sustenta falsas bases. A compreensão traz a percepção de que os valores inabaláveis, as verdades que sustentavam nossa posição, eram ilusórias, fantasiosas, subjetivas.

Devemos analisar, estudar e compreender os pensamentos que passam em nossas mentes. Perceber de onde surgem e para onde vão. Perceber o que é uma mente tranquila e o que é uma mente agitada. Perceber por que pensamos, no que pensamos e como pensamos.

Esta é uma técnica de exploração, de investigação de nossas próprias mentes. É uma técnica que possibilita o desenvolvimento equilibrado da mente. É um caminho para compreendermos nossas próprias mentes e transformá-las.

Ao alcançarmos um bom entendimento sobre o que é um defeito em si mesmo não seremos mais dominados com tanta facilidade. Desenvolver autocontrole é um dos primeiros passos, mas a eliminação está bem mais além do autocontrole.

A percepção da diminuição da influência ou da eliminação de um defeito motiva a ir adiante. Por isso, de tempos em tempos, de alguns anos em alguns anos, devemos fazer um balanço de nossas vidas, verificar onde mudamos e onde continuamos a errar. Conforme compreendemos e comprovamos a doutrina, vamos tendo mais confiança nela. Todo caminhante deve trazer a doutrina presente em seu coração.

Para que não nos percamos em abstrações e fantasias, a meditação deve andar junto com prática da conduta reta, o que é compreendido deve ser colocado em prática, levado para o dia-a-dia. É importante ter decisão de mudar, é muito benéfico assumirmos compromissos conosco e nossa Divina Mãe. Porém, estes compromissos precisam ser realistas, alcançáveis. Gradualmente nossas capacidades irão aumentando e poderemos assumir maiores compromissos conosco e com nossa Bendita e Adorada Mãe.

Devemos sempre analisar os prejuízos que os defeitos nos trazem e os benefícios da prática da ação correta, das virtudes. Não é uma questão de memorizar regras para saber como agir. Esta prática não se refere apenas ao entendimento intelectual, mas sim à compreensão profunda. É preciso constante observação e muita análise até que se chegue à compreensão, e então à eliminação.

A capacidade de cada um é diferente. Alguns têm grande facilidade para compreender, outros menos, outros sentem  muita dificuldade. O mesmo ocorre quanto à capacidade de cada um para colocar o aprendizado em prática. Tudo depende dos méritos individuais.

É importante estudar e ter uma visão teórica da doutrina e da natureza da mente, mas o conhecimento precisa ser investigado em nossos próprios corações e mentes. A mera informação ou simples leitura não pode nos purificar. É preciso conhecimento e prática.

Quando estudamos esta técnica, encontramos mais sobre auto-observação e atenção plena do que sobre a técnica em si. A atenção plena leva à iluminação, ao conhecimento da realidade.

Para nos autoconhecermos, para nos transformarmos, precisamos aprender a nos observar. Para eliminarmos os nossos defeitos, precisamos aprender a conhecê-los, a detectá-los. Precisamos observar o que ocorre em nossos corações e mentes no momento presente, de instante em instante.

Podemos aprender muito sobre nós mesmos se nos observarmos atenta e constantemente. Todo instante traz a oportunidade do autodescobrimento. Nenhuma situação deve ser desprezada.

Precisamos identificar os defeitos quando eles ocorrem. Nestes momentos, precisamos perceber nossas reações, pensamentos, sentimentos, emoções, condicionamentos, tendências, gestos, posturas. Uma coisa é analisar o que foi percebido, e outra, muito diferente, é tentar perceber depois. Depois que a situação passou, a percepção será completamente diferente, a mente irá distorcer os fatos e estará convencida de suas justificativas.

O que é percebido, identificado através da auto-observação deve ser levado a meditação reflexiva, a análise, a investigação.

No final de cada sessão devemos rever os principais pontos e as compreensões que tivemos para que nossas ideias fiquem bem claras, depois devemos anotá-las. Estas anotações devem ser revistas enquanto formos continuar com o tema ou sempre que formos voltar a ele. Também é importante manter as reflexões vivas, voltar ao tema durante o dia.

Para progredirmos, precisamos ter decisão e uma aspiração ardente pela iluminação, não apenas a superficialidade de um momento de empolgação.


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