Jardim dos Mestres

Como Desenvolver Tranquilidade

A mente sem treinamento tende a contar histórias e gerar sofrimentos. Os pensamentos agitam a mente e a deixam em constante movimentação.

O barulho dos pensamentos em nossas mentes é tão grande que nas ruas das grandes cidades é comum vermos pessoas conversando consigo mesmas em voz alta. A diferença entre nós e estas pessoas é que não chegamos a externar os nossos pensamentos, mas eles estão lá e fazem barulho.

O pensamento só pode ser silenciado com treinamento. Contudo, a mente está acostumada com a agitação, com o movimento e não aceita ser silenciada assim porque sim. É preciso vontade, persistência, paciência e uma forte intenção de desenvolver tranquilidade.

Não se alcança o silêncio da mente de imediato. Normalmente, o que ocorre é o contrário, começa-se a perceber o que nunca havia sido percebido, começa-se a perceber toda a agitação dos pensamentos. Entretanto, começar a perceber a agitação da mente é um bom sinal. As pessoas comuns não se dão conta de seu estado mental sempre agitado.

Em nossa condição psicológica atual, somos continuamente distraídos pelos objetos externos, pelos estímulos externos, por lembranças, desejos, preocupações, obrigações.

Acreditamos que precisamos de uma condição perfeita para fazermos nossas práticas. Por isso, os sons externos perturbam tanto a nossa prática, sons como o do cachorro que late na rua, da agitação das crianças brincando, da obra na casa ao lado ou de passos no apartamento de cima. Mas, na realidade, somos nós que escolhemos dar atenção a esses ruídos. Os sentidos nos perturbam porque pensamos possuí-los e, assim, nos agarramos a eles. Acreditamos que a perturbação nos pertence e que não podemos abandoná-la. O recolhimento, o controle dos sentidos, a não identificação com os sentidos é pratyahara.

Se anotarmos todos os pensamentos que surgem em nossa mente, sem discriminação alguma, perceberemos que muitos são inúteis, desconexos ou sem sentido, perceberemos que existe muita confusão e fantasia em nossas mentes. Se anotarmos os pensamentos que hoje cremos ser importantes e, depois de um tempo, formos ler o que escrevemos, não acreditaremos que demos tanta importância a tais pensamentos.

A prática para silenciar a mente consiste em observar os pensamentos e deixar que passem, sem apegar-se, sem alimentar o processo, sem dar demasiada importância a eles. O objetivo da meditação de tranquilidade é desenvolver a concentração, a atenção dirigida. É com estas práticas que poderemos controlar nossas próprias mentes.

Acomode-se, acalme-se, deixe as preocupações de lado. Abandone tudo e permita-se estar em paz, permita-se sentir contentamento. Não deseje fazer nada especial. Não deseje mais coisa alguma. Não deseje estar em local ou situação diferente. Simplesmente seja, sem expectativas. Simplesmente esteja. Nada falta. Não há lugar algum para ir. Não há nada para fazer.

Observe os pensamentos que surgem na mente e procure perceber o intervalo entre eles. A meditação é o prolongamento deste intervalo. Nesta prática não devemos nos desviar para análises ou preocupações. Nem agarrarmo-nos aos pensamentos que julgamos bons ou tentarmos impedir os que julgamos maus.

Cada vez que a mente começar a divagar, ela precisa ser trazida de volta gentilmente, suavemente, sem movimentos bruscos. Não importa quantas vezes isso ocorra, se a mente divagar, traga-a de volta e não desanime. Os pensamentos surgirão, perceba-os, não se deixe levar pelos pensamentos nem os rejeite, deixe-os ir, pois são impermanentes.

Para auxiliar no processo podemos rotular os pensamentos como por exemplo: “pensando no final de semana”, “pensando no trabalho”, “pensando nas contas”. Também podemos classificá-los como por exemplo “apego”, “preocupação”, “medo” ou simplesmente “pensamento”. Cada vez que percebermos um pensamento o rotulamos ou classificamos e com gentileza e suavidade trazemos a mente de volta. Isso pode ajudar no início. Porém, o melhor é não rotular e nem classificar, mas simplesmente perceber e trazer a mente de volta ao objeto de meditação.

Existe a ideia equivocada de que pensamentos não deveriam surgir em nossa mente. Porém, uma mente tranquila não é, necessariamente, uma mente sem pensamentos. Na realidade, o surgimento de pensamentos não tem tanta importância, os pensamentos não são um problema em si mesmos, deixe-os em paz. O importante é não se distrair, não ser dominado pelo fluxo aleatório de pensamentos.

Tentar deter o surgimento de pensamentos, seguí-los sem dar-se conta, rejeitá-los ou aceitá-los são os erros mais comuns que as pessoas costumam cometer nesta prática. Tentar deter os pensamentos cria tensão, devemos apenas percebê-los e deixá-los ir. Não é questão de tentar fazer algo e sim de abandonar o controle, de entregar-se, de simplesmente parar de pensar, parar de tentar fazer algo. Não se para a mente evitando o pensamento. Ela para com a satisfação, com o regozijo de seu próprio silencio e tranquilidade. Evitando o pensamento só se cria tensão, dor, sofrimento, repressão.

Acreditamos que os pensamentos são concretos, que são a verdade, a realidade. Com esta prática, aprendemos a dar menos importância aos pensamentos. Os pensamentos são desprovidos de realidade própria, não são concretos.

Com esta prática aprendemos a observar a mente sem nos apegarmos, sem nos agarrarmos aos pensamentos. Eles são impermanentes, mudam constantemente, são resultado de condicionamentos, lembranças, desejos.

Devemos abandonar o hábito de criar e estimular pensamentos. Com o treino de abandonar os pensamentos na meditação, desenvolvemos uma habilidade que poderá ser aplicada à vida diária. Em nosso dia-a-dia, não devemos deixar a mente solta com seus pensamentos aleatórios e histórias, devemos sempre cortar o fluxo de pensamentos e buscar o silêncio da mente.

Primeiro aprendemos a silenciar a mente e, mais tarde, poderemos aprender a escolher o que pensar, a dirigir o pensamento.

Não reagir durante a prática é infinitamente mais fácil do que não reagir no calor das situações. Nossas mentes estão muito acostumadas a reagir, a agitar-se. Com as práticas, aos poucos, a mente torna-se mais resistente às perturbações e vai se acostumando a ficar tranquila.

As lembranças que surgem nos perturbam, precisamos aprender a deixá-las ir, precisamos aprender a deixá-las em paz. Quando a mente silencia, ela para de projetar, de ir para o passado e para o futuro, e então experimentamos uma sensação de paz e tranquilidade. Quando a tranquilidade começa a surgir, é um indício de que nossa concentração está melhorando. Aos poucos, com a prática constante, a tranquilidade vai se tornando mais firme, a mente vai se tornando mais estável.

Quando surgir a experiência de paz e tranquilidade, não devemos deixar a mente desviar-se para análises. Ela irá querer explicar a experiência, buscar palavras, e com isso acabaremos nos distraindo e perdendo a experiência.

Uma mente serena traz lucidez e sabedoria. A habilidade de silenciar a mente deve ser aplicada para desenvolver a percepção e compreensão da realidade.


0   Respostas em Como Desenvolver Tranquilidade

Deixe sua mensagem

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *