Jardim dos Mestres

Exame de Consciência e Morte Mística

É triste observar que, em praticamente todas as religiões, as pessoas se contentam em apenas frequentar missas, cultos, atividades. Vivem uma espiritualidade vazia. Trazem os corações cheios de mágoas e ressentimentos, não praticam o verdadeiro perdão. Vivem uma espiritualidade apenas intelectual, mental, sem obras, sem prática concreta, sem buscar a purificação do coração e da mente, sem buscar eliminar defeitos ou superar limitações, sem buscar desenvolver virtudes.

Muitos frequentam suas religiões por anos e anos e não mudam em nada, não se transformam. A realidade de suas vidas diárias segue sendo diametralmente oposta ao seu ideal religioso.

Frequentam por costume, por obrigação, porque ouviram que é bom frequentar, que é necessário ter uma religião. Continuam com a mesma forma de pensar, sentir e agir que tinham antes de buscar pela espiritualidade. Enganam-se e caem na vaidade, acreditando serem superiores aos outros por serem religiosos. Porém, fazem as mesmas maldades que aquelas pessoas que não são religiosas.

Triste ver como todos cometem sempre os mesmos erros, sofrem sempre da mesma forma e nas mesmas situações. Parecem estar convencidas de que o ideal nunca pode tornar-se prático e a prática nunca alcançará o ideal. Parece que não acreditam que podem viver de uma forma diferente, que exista um estado interno melhor, superior, mais elevado.

A religião serve para regenerar as pessoas, para transmitir valores espirituais, valores elevados. Mas o que se vê são apenas discursos lindos e vazios. Os ensinamentos, as práticas e métodos ensinados pelos místicos desde o início do Cristianismo foram esquecidos, deixados de lado.

A tradição mística cristã fala muito do exame de consciência e da morte mística, da mortificação. Esta é uma prática de meditação reflexiva. O autoconhecimento é um tema sempre abordado pelos grandes místicos do Cristianismo.

O exame de consciência faz parte das Regras de várias ordens monásticas. Mas é claro que estas práticas não são apenas para monges e monjas, não precisamos nos retirar do mundo, não precisamos ir para um convento ou uma caverna. Estas práticas constituem um caminho para a purificação de nossos corações e mentes, formam a chave de qualquer transformação. Não há caminho mais fácil.

Este exame de consciência consiste em analisar os eventos do dia, perceber onde nossa conduta não foi adequada, refletir sobre o que pensamos, sentimos e dissemos em cada um destes eventos. Estas práticas podem e devem ser feitas também para eliminar traumas, mágoas e ressentimentos do passado, medos e lembranças que nos atormentam.

Para que este exame seja possível, é necessário estar sempre vigilante, sempre atento, observando onde está, o que está fazendo, pensando, sentindo. Assim, desta constante vigilância, reconhecemos os eventos que devemos examinar, analisar, reconhecemos os pensamentos, sentimentos, emoções, palavras, sobre os quais devemos refletir. É no dia-a-dia, no trabalho, no relacionamento com as pessoas que nossos defeitos afloram. Portanto, precisamos estar sempre atentos e em constante auto-observação para percebê-los.

Destas análises e reflexões surgem as revelações, que também são chamadas de insights ou de compreensões. Esta reflexão é a oração mental, a oração discursiva[1].

Quando um defeito é compreendido, então deve ser eliminado. É a Mãe Divina que elimina nossos defeitos, mas para que isso ocorra precisamos orar, pedir, rogar e suplicar com muito fervor para que o defeito percebido e compreendido seja eliminado. Devemos pedir também ajuda para compreender os defeitos, os erros. Devemos refletir e orar para que tudo que nos atormenta possa ser eliminado.

A morte mística é a morte psicológica, a eliminação de nossos defeitos, de nossos demônios internos[2], é o processo da via purgativa[3]. Dizem as sagradas escrituras que o homem velho deve morrer. A morte mística é o processo de observação, reflexão e súplicas. É o processo de purificação de nossos corações e mentes. Esta é uma prática milenar e está em todas as grandes religiões.

Esta é uma prática milenar e está em todas as grandes religiões. No hinduísmo, esta prática é conhecida como dissolução do falso ego. No Budismo, esta prática é chamada de eliminação dos agregados psíquicos, é o processo de purificação do coração e da mente. A obra de São João da Cruz[4], Noite Escura, fala muito de mortificação e destas purificações. Este processo de morte mística é um dos estágios do processo da alquimia medieval. A eliminação dos egos é um dos pilares da Gnose.

É preciso muita paciência e persistência, ninguém se torna santo num só dia, com paciência possuiremos nossas almas (cf. Mt 5:9). Este é um processo lento e doloroso. Não pode haver culpa ou autocomiseração pelos defeitos que se possui, o que importa é a firme determinação de trabalhar para eliminá-los, a firme decisão de mudar, de não aceitar permanecer para sempre da mesma forma, de cometer os mesmos erros, de sofrer nas mesmas situações.

É possível eliminar de si a raiva, a inveja, o ciúme, a má vontade, a preguiça, a mágoa, o ressentimento, a gula, a luxúria, a avareza, a tristeza, a ganância, o orgulho. Mas para tudo isso é preciso muito esforço, muita fé, muita oração à Divina Mãe.

Não podemos eliminar nossos defeitos pelo simples conhecimento, pela simples informação, este não é um processo simplesmente intelectual. O simples conhecimento não resolve, pois o impulso e a tendência continuam a existir. É preciso compreensão, depois a compreensão precisa transformar-se num sentimento e por fim o defeito deve ser eliminado através da oração.

Sem reflexão não se pode chegar à oração, ao arrependimento, à contrição e compulsão do coração, pois é na reflexão que percebemos nossos erros.

É imensamente importante observar que não pode haver reflexão proveitosa sem uma doutrina confiável, sem as instruções que trazem uma nova forma de pensar, sentir e agir, que abrem a visão, que trazem um conteúdo novo, novas ideias e valores. Sem isso a alma está como que cega.

É da falta de uma doutrina confiável e da falta de profundidade de conhecimento e compreensão das doutrinas confiáveis, que surgem todos os tipos de bobagens e aberrações, de desvios e distorções de ensinamentos e doutrinas. Muitas vezes as pessoas querem torcer o ensinamento, a doutrina, para adequá-los às suas necessidades, aos seus desejos. É de tudo isso que surgem coisas como a teologia da prosperidade, a “lei de atração” e muitas teorias de autoajuda.

O casamento[5], a vida familiar e profissional não excluem, de nenhuma forma, nem a oração, nem as graças místicas, nem qualquer evolução espiritual. Nada disso é privilegio reservado somente a algumas almas excepcionais. Tudo isso está disponível a todo aquele que quiser com intensidade e se esforçar com empenho. Toda fraqueza tem origem na dúvida e na falta de decisão.

O caminho, esta transformação, esta evolução espiritual, é possível a todos aqueles capazes de tomar uma decisão e de sustentá-la por toda vida. São Francisco de Assis, um dos personagens mais importantes do Cristianismo depois do Cristo, antes de se converter, era um boêmio, como vários outros rapazes da cidade em que vivia. Santa Teresa de Ávila, a grande doutora da Igreja, antes de se converter, vivia nas festas da cidade, como qualquer outra moça da época. Mahatma Gandhi, o grande libertador da Índia, como dito por ele mesmo em sua autobiografia, antes de decidir mudar o rumo de sua vida, era preguiçoso e luxurioso, assim como são muitos outros jovens da mesma idade.

Certamente que não foi fácil para nenhum deles[6] e não se está dizendo que é ou que será fácil, pois é sabido que o caminho largo e fácil leva ao abismo e que o caminho que leva aos céus é estreito e apertado.

O Cristo Jesus disse: “Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sobre si a sua cruz e siga-me” (Mt 16:24).

 


[1] Estes temas serão abordados mais adiante.

[2] Este tema será aprofundado mais adiante.

[3] A tradição mística cristã fala de três vias, a via purgativa, a via iluminativa e a via unitiva. Não são caminhos diferentes, são complementares, cada uma se inicia onde a outra termina. Não há um tempo de duração fixo para cada estágio, para cada um o processo tem suas particularidades.

A via purgativa é a dos iniciantes, consiste na eliminação dos defeitos, das paixões, dos apegos. Nesta via a alma se purifica. Para São João da Cruz esta é a via da penitência. São Tomás de Aquino também chama esta via de via ascética. Para os místicos, a negação de si mesmo e a oração são os principais meios purgativos. Os perseverantes que progridem passam para via iluminativa, aqui a alma já está purificada, mas está ainda distante de Deus e sofre por isso, aqui a alma tem que abandonar-se e confiar plenamente em Deus. Em seguida vem a via unitiva, aqui Deus une-se a sua criatura e revela seus mistérios, são experiências místicas inefáveis que os místicos tentam descrever com analogias e símbolos, pois a linguagem comum não as pode descrever. Para São Tomás de Aquino, estas duas ultimas vias se fundem numa única via, a via mística.

[4] São João da Cruz (Fontiveros, 24 de Junho de 1542 — Úbeda, 14 de Dezembro de 1591) foi um frade carmelita espanhol, famoso por suas poesias místicas. Era contemporâneo de Santa Teresa de Ávila e ajudou-a no processo de reforma e fundações. Deixou escritos fantásticos como a Noite Escura da Alma e Subida do Monte Carmelo. Também é reconhecido como Doutor da Igreja.

[5] Deste de que seja vivido de forma reta, pura. Evidentemente que um adúltero está longe de qualquer caminho espiritual. Para aprofundar este tema de casamento ver O Matrimônio Perfeito do Mestre Samael Aun Weor.

[6] Estudar e conhecer a vida dos grandes místicos, dos grandes santos, dos mestres, yogues ou lamas da história traz muita inspiração.


1   Respostas em Exame de Consciência e Morte Mística

  1. Geraldo Dias disse:

    Muito bom o texto acima, um ensinamento grandioso, necessário para a humanidade.

    Saudções,
    Geraldo.

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