Jardim dos Mestres

Impressões

O mundo chega a nós através das impressões captadas pelos sentidos e reagimos mecanicamente a elas. As impressões alteram nossos estados, emoções, sentimentos. São elas que nos movem. Podem ser classificadas como agradáveis e desagradáveis.

Muitas vezes, as impressões são confundidas com as sensações. Mas as sensações estão ligadas ao corpo físico e as impressões à mente. Por exemplo, podemos ter a impressão de que uma comida é saborosa quando olhamos para ela, mas só teremos a sensação correspondente quando efetivamente dela provarmos.

A impressão de que uma pizza é deliciosa é subjetiva. As impressões são vazias. A pizza não é saborosa em si mesma, ela não possui qualidades inerentes. Se assim fosse, todos sempre a apreciariam, nunca falharia.

As impressões que temos são superficiais, parciais, incompletas. Podemos ter uma impressão sobre algo e mudá-la, após uma análise mais profunda. As impressões estão ligadas a opiniões, a pontos de vista.

A impressão que temos sobre uma pessoa, situação ou objeto pode mudar, dependendo de nossas experiências. Num dia, temos uma determinada impressão sobre algo e, após uma experiência, podemos ter outra, completamente diferente da impressão anterior.

As impressões são impermanentes, estão sempre mudando, surgindo e cessando. Uma pessoa tem uma impressão de outra numa determinada situação, condição, contexto. Ao se apegar a esta impressão, sofrerá com as mudanças, sejam estas do corpo, das roupas ou acessórios.

Defeitos e desejos condicionam e distorcem nossas impressões. Quando estamos com raiva, temos uma impressão sobre determinada situação e, quando a raiva passa, nossa impressão já é outra. Quando desejamos um objeto, temos uma impressão sobre ele, mas, se lhe somos indiferentes, temos outra impressão.

Tudo isso evidencia a possibilidade da transformação das impressões, elas não são concretas, permanentes, imutáveis. Na transformação das impressões está a possibilidade de mudarmos nossa realidade, nosso comportamento, nossas reações e de transformarmos nossas vidas.

Quando as impressões não são transformadas, geram emoções negativas, tornam-se novos agregados, novos egos. Por isso, é preciso romper com a mecanicidade das impressões. A transformação das impressões é de nossa responsabilidade.

As ideias da doutrina podem mudar nossa forma de pensar e transformar as impressões. A todo instante, devemos nos lembrar da possibilidade de transformar as impressões, mas não podemos nos identificar com as impressões, se quisermos transformá-las.

Devemos estudar as impressões e nossas reações a elas. A transformação das impressões é uma oportunidade de trabalho interno. A auto-observação possibilita a transformação das impressões. Esta possibilidade não existe para quem vive mecanicamente.

Numa passagem de seus ensinamentos sobre a transformação das impressões, o Mestre Samael diz que, se chegar à nossa mente a impressão de uma mulher luxuriosa, podemos transformar tal impressão pela compreensão, lembrando-nos das ideias da doutrina, da impermanência, lembrando-nos de que um dia esta mulher morrerá e seu corpo entrará em decomposição, e visualizando a decomposição com a imaginação.

No Budismo, esta prática de transformar impressões é chamada de contemplações neutralizadoras. Para combater a luxúria e o apego ao corpo, existem as contemplações do cemitério[1], que sugerem imaginar os estágios de decomposição do corpo. Da mesma forma, para transformar a gula, podemos imaginar a comida mastigada e seu processamento orgânico, até que se torne excremento.

A transformação das impressões conduz à percepção da realidade, à iluminação, ao despertar, traz leveza, liberdade, flexibilidade


[1] Majjhima Nikaya 10 – Satipatthana Sutta, também conhecido como Fundamentos da Atenção Plena.


23 de janeiro de 2013

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