Jardim dos Mestres

Joshu Hushin (Chao-chou)

Joshu HushinJoshu foi um destacado mestre do budismo Chan. Tendo nascido no ano de 778, viveu na China durante a Dinastia T’ang (618-907), período em que houve um florescimento do Budismo Chan. Chao-chou Ts’ung-shên é seu nome em chinês, Joshu Hushin é como é chamado no Japão.

Foi discípulo do também destacado mestre Nansen Fugan (748-835) ou Nan-chuan Pu-yuan em chinês. Ambos compartilhavam do ensinamento de Rinzai Gigen (em chinês, Lin-chi) o fundador da escola Rinzai, que minava contundentemente todo tipo de orgulho intelectual, fantasia ou teoria a respeito do Zen e valorizava a vivência concreta e cotidiana do Zen acima de quaisquer abstrações filosóficas.

Nansen e Joshu desenvolveram uma forma didática própria, muito sutil e refinada, onde um pequeno gesto ou uma resposta “cirúrgica” eram tão contundentes em romper com a lógica, os conceitos, teorias, padrões, amarras e resistências de seus discípulos quanto os gritos, sopapos e bastonadas presentes na didática de Rinzai.

Joshu estudou junto ao mestre Nansen desde muito jovem. Aos dezoito anos teve um primeiro vislumbre da iluminação (kensho) que só veio a realizar profundamente muitos anos mais tarde. Esse momento é contado através do seguinte diálogo:

Certa vez Joshu perguntou ao mestre Nansen: “O que é o Caminho? “Nansen respondeu: “A mente cotidiana é o Caminho.” “Então, devemos dirigir-nos em sua direção ou não?”, perguntou Joshu. Disse Nansen: “Se você procurar dirigir sua vida na sua direção, irá se afastar dele.” Joshu, depois, continuou: “Se não tentarmos, como poderemos saber se ele é o Caminho?” Nansen replicou: “O Caminho não pertence ao conhecer ou não conhecer. Saber é ilusão. Não saber é não ter discriminação. Se você realmente alcançar o Caminho da Não-Dúvida, verá que é como um grande vazio, imenso e sem fronteiras. Como pode haver certo e errado no Caminho?”

Joshu viveu quase quarenta anos recebendo instrução junto a Nansen. Muitos koans famosos que, ao longo dos anos, serviram de base para a meditação de muitos monges envolvem passagens de Joshu e Nansen. Os koans muitas vezes podem parecer artificiosos e superficiais para um olhar desatento e que desconhece sua importância na formação dos praticantes do budismo zen. Cada conto ou anedota serve de ferramenta didática cujo objetivo é nos revelar algo de nossas ilusões, fantasias e ignorância. Fornecendo-nos a base para que surja a compreensão e percepção do Caminho.

Certa vez, Joshu fechou-se na cozinha do monastério e deliberadamente, deixou que se enchesse de fumaça antes de clamar por socorro em altos brados. Os monges acudiram-no, mas ele se recusou a abrir antes que lhe fornecessem “a palavra justa”.

Seu mestre Nansen, silenciosamente, passou-lhe a chave pela janela. Joshu, aparentemente satisfeito, abriu e saiu sem uma palavra.

Porque Joshu se fechou na cozinha? Porque deixou que se enchesse de fumaça? Porque não aceito o auxilio dos monges? Porque receber a chave de Nansen pela janela lhe satisfez? Porque abriu e saiu sem uma palavra? O que me causa este koan? Fiquei chocado? Julguei a ação de Joshu? Se queremos aprender algo do que o koan nos pode ensinar devemos nos questionar sobre ele e permanecermos abertos para ouvir a voz de nossos corações. Os questionamentos podem ser realizados em muitas camadas diferentes e podemos aprender muito sobre nos mesmos e sobre o Caminho meditando em uma única passagem.

Em outra ocasião Joshu tinha saído, os monges das agremiações orientais e ocidentais do mosteiro de Nansen começaram a se desentender. Havia alguma rivalidade entre eles e ela se cristalizou ao redor de um gato. Vendo os monges brigarem sobre a posse do gato, Nansen levantou-o e disse: “Se vocês podem dizer uma palavra dentro do Zen, salvarão o gato. Se não, vou dividi-lo em dois.” Ninguém pôde falar e Nansen matou o gato. Naquela noite, quando Joshu voltou, Nansen contou-lhe o que tinha acontecido. Joshu tirou a sandália e colocou-a na cabeça, e saiu. “Se você estivesse aqui, teria salvado o gato”, comentou Nansen.

Quando seu mestre morreu estava próximo aos 56 anos de idade. Algum tempo após a morte de Nansen, Joshu se retirou do monastério na montanha de Nan-chuan e passou a viver como um monge peregrino. Se encontrando com outros mestres, testando e amadurecendo seu conhecimento.

Enquanto peregrinava, certa ocasião, Joshu dirigiu-se ao chalé de um eremita e perguntou: “O mestre está? O mestre está?” Em resposta o eremita ergueu seu punho. Joshu disse: “A água é muito rasa para ancorar aqui”, e foi-se embora. Chegando ao chalé de outro eremita, perguntou novamente: “O mestre está? O mestre está?” Este eremita também ergueu o punho. Joshu disse: “Livre para dar, livre para tomar, livre para matar, livre para salvar”, e fez uma profunda reverência.

Seguiu esta vida de peregrino por aproximadamente vinte anos deixando de vagar somente quando estava próximo aos oitenta e quatro anos de idade. Então se estabeleceu na cidade de Chao-chou, fundou um mosteiro e passou a ensinar oficialmente. Como era costume na época, é pelo nome da cidade onde fundou seu mosteiro que passou a ser conhecido posteriormente.

Nesta fase de sua vida, gozava de uma iluminação profundamente amadurecida pelos anos de estudo e dedicação e havia desenvolvido um estilo de ensinar objetivo e contundente que, de um lado, direcionava-se a destruir em seus discípulos todo falso apoio nas abstrações intelectuais, nas fantasias sobre o Caminho, nas fantasias sobre como os mestres deveriam ser e se comportar, nas imitações artificiosas meramente comportamentais destituídas de uma compreensão profunda. E, de outro lado, gerava situações onde seus discípulos pudessem ter condições de compreender e perceber a realidade do Chan sem artifícios e afetações. Muito de seu estilo maduro, suave, e rigoroso podem ser vistos em estórias deste período de sua vida.

Certa vez um monge veio até Joshu na hora do café da manhã e disse: “Acabei de entrar neste mosteiro. Por favor, ensine-me.” “Você já tomou seu mingau de arroz?”, perguntou Joshu. “Já, sim”, replicou o monge. “Então é melhor lavar sua tigela”, disse Joshu.


Em outra ocasião surgiu um novato se gabava de ter chegado com as mãos vazias. (O que de acordo com a tradição zen simboliza chegar de mente vazia, sem ideias preconcebidas). Joshu o interpelou exigindo: “Então põe tudo no chão”. O aluno persistiu no erro: “Pôr o quê, se não trago nada?” Ao que respondeu Joshu: “Está bem, então continua a carregá-lo”.

Joshu seguiu ensinando e formando discípulos por cerca de trinta e cinco anos até sua morte em 897 quando contava com cento e dezenove anos de idade. Mais koans envolvendo passagens da vida deste mestre podem ser encontrados nos textos clássicos: Registros do Precipício Azul, Registros do Silêncio, Gateless Gate.


8 de setembro de 2012

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