Jardim dos Mestres

Koans são frases enigmáticas de difícil compreensão que são dadas aos discípulos, aos aspirantes. São muito utilizados no Zen, principalmente na escola Rinzai. Eles visam romper com os padrões de pensamento, com a dualidade de conceitos, com condicionamentos mentais.

Os koans sempre possuem respostas, ainda que estas respostas não sejam lógicas ou intelectuais.

As respostas dos koans são espontâneas, intuitivas e muitas vezes parecem tão absurdas quanto o próprio koan. Mas, em realidade, são cheias de profundo significado, tanto quanto o koan, ou até mais.

Muitos koans estão intrinsecamente relacionados com a Doutrina Budista ou com a história de uma tradição específica. Para quem não possui estes conhecimentos estes koans perdem muito de seus significados.

Um koan muito utilizado e que parece até ser apenas uma simples pergunta é “o que falta?”.

Mestre Samael conta uma história sobre o monge budista Tieh Shan. Tal monge passou por algumas experiências em meditação e foi contar para seu Mestre, que disse: “Não, não é isto. Deves continuar trabalhando em tua meditação”.

Depois, por insistência de Tieh Shan, o Mestre falou um pouco sobre o Dharma e no final disse: “Para propagares e glorificares as nobres façanhas dos Budas e dos Patriarcas, falta-te receber uma boa martelada na nuca”.

O Mestre disse que Tieh Shan precisava trabalhar mais com dhyana e deixar de lado os pensamentos comuns. O monge prosseguiu com suas práticas e conforme lhe chegavam as respostas, procurava o Mestre que sempre lhe dizia que faltava algo.

Tieh Shan praticou muito, chegou às profundas absorções de dhyana. Mas toda vez que procurava o Mestre, a resposta era sempre que faltava algo.

Certo dia, numa meditação, a palavra “faltar” surgiu na mente de Tieh Shan, então o monge teve um insight profundo, começou a gargalhar, agarrou o braço do Mestre e disse: “O que é que me falta? O que é que me faz falta?”.

O Mestre o esbofeteou três vezes e disse: “Ó Tieh Shan, tardaste muitos anos para chegar a este ponto”.

Wumen Huikai (1183-1260), em japonês Mumon Ekai, foi um grande Mestre Zen da escola Rinzai. Ele compilou e comentou um conjunto de 48 koans que se tornaram referência.

Uma destas histórias diz que certa vez Joshu perguntou ao Mestre Nansen: “O que é o Caminho?”.

Nansen respondeu: “A vida cotidiana é o Caminho”.

E Joshu perguntou: “Então, devemos dirigir-nos em sua direção ou não?”.

Disse Nansen: “Se você procurar dirigir sua vida na sua direção, irá se afastar dele”.

Joshu depois continuou: “Se não tentarmos, como poderemos saber se ele é o Caminho?”.

Nansen replicou: “O Caminho não pertence ao conhecer ou não conhecer. Saber é ilusão. Não saber é não ter discriminação. Se você realmente alcançar o Caminho da Não-Dúvida, verá que é como um grande vazio, imenso e sem fronteiras. Como pode haver certo e errado no Caminho?”.

Num outro momento, alguns monges estavam discutindo sobre a posse de um gato. Quando Nansen viu a discussão disse: “Se vocês podem dizer uma palavra dentro do Zen, salvarão o gato. Se não, vou dividi-lo em dois”. Ninguém pôde falar e Nansen matou o gato. Mais tarde, quando Joshu apareceu, Nansen contou-lhe o que havia ocorrido. Joshu tirou a sandália e colocou-a na cabeça, e saiu. Nansen então comentou: “Se você estivesse aqui, teria salvado o gato”.

Os koans nos colocam num beco sem saída. Ficamos pressionados por dúvidas, conflitos dualistas, certo e errado, bem e mal. Nossas mentes logo começam a tecer considerações sobre as histórias dos koans. Pensamos: “como pode ser um Mestre?”, “como um Mestre comporta-se desta forma?”. Criamos expectativas, condições que devem ser preenchidas pelos outros e por nós mesmos, definimos “o caminho espiritual é isso ou aquilo”, “um santo é assim ou assado”, “um mestre deve comportar-se desta ou daquela forma”. Tudo o que não se encaixa em nossa forma limitada e condicionada de perceber a vida é rotulado como errado. Os koans servem para quebrar todos estes conceitos, com estes processos.

Em muitas histórias a Iluminação é alcançada em eventos absolutamente singelos como observar uma folha seca ou um travesseiro cair, observar um cachorro bebendo água, contemplar uma paisagem.

Entretanto, sempre queremos fugir da monotonia do presente, do cotidiano, de nossas misérias. Quando um koan nos é apresentado buscamos significados escondidos, ocultos, fantásticos. Porém, os koans apontam para simplicidade da vida, para realidade que está diante de nossos olhos, mas que não percebemos. Não existe nada velado, oculto, escondido. Os véus estão em nossas mentes.


2   Respostas em Koans

  1. Rogério Calloni disse:

    As montanhas são móveis, as nuvens não!

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