Jardim dos Mestres

Mística e Devoção

Mística é toda forma de união interior com Deus, não é questão de teoria, mas sim de vivência, de experimentação direta. É uma vivência interior, portanto intransferível.

Mística é gratidão, é devoção, é louvor. O viver místico é um viver em gratidão, louvor e devoção permanentemente. É o sacralizar a vida. É o ver Deus em todas as coisas. É confessar os erros e arrepender-se. É suplicar por perdão. É suplicar por luz, paz, alegria e iluminação.

A experiência mística leva ao conhecimento da verdade. E aquele que conhece a verdade sabe, por experiência direta, o profundo significado de todas religiões. Por isso, místicos das mais diversas culturas e épocas narraram, através dos séculos, experiências análogas. Em seu livro Os Evangelhos Gnósticos, Elaine Pagels diz: “Místicos como Jacob Boehme, acusado de heresia, e visionários radicais como George Fox, com toda probabilidade não familiarizados com a tradição gnóstica, não obstante formularam interpretações análogas da experiência religiosa.”

A devoção pura, renunciada, é o que devemos buscar. Não podemos ser devotos em troca de ganhos materiais ou desfrute dos sentidos, pois este tipo de prática é uma perversão, uma deturpação da devoção e cria grandes obstáculos em nossos caminhos. Quem segue desta forma prende-se cada vez mais às misérias da existência material, fortalece cada vez mais as correntes que nos aprisionam.

A devoção purifica o coração, ajuda a afastar os maus pensamentos e a manter a mente tranquila. Manter os pensamentos em Deus é manter o fogo aceso. Entretanto, a devoção não deve ser condicionada, se condicionarmos a devoção a benefícios conquistados, cedo ou tarde nos voltaremos contra Deus. O objetivo das práticas espirituais é livrar-se das misérias da vida e não cultivá-las, fortalecê-las ou prolongá-las. Portanto, devemos manter o foco de nossas orações em assuntos transcendentais, sem deixar que o foco caia em assuntos mundanos.

A devoção é o amor e o apego à Divindade, e este é o único apego benéfico. Mais ainda, este é o apego que destrói outros apegos. Não há vida espiritual sem devoção, mística e reverência.

Muitas são as formas de devoção. As tradições orientais falam de nove formas. A primeira consiste em ouvir os nomes de Deus e é chamada de sravana. A segunda, chamada de kirtana, consiste em cantar os nomes de Deus e suas glórias. A terceira, smarana, é a lembrança dos nomes de Deus, é a concentração, a meditação em Deus. A quarta, pada-sevana, consiste em servir a Deus. A quinta é arcana, na qual estão os ritos devocionais. A sexta, vandana, consiste em prosternar-se aos pés de Deus, em louvar o Senhor. A sétima, dasya, é o considerar-se servo de Deus. A oitava, sakhya, consiste em considerar-se amigo do Senhor. E a nona, atma-nivedana, consiste em entregar-se inteiramente a Deus.

Quem busca a compunção do coração encontra a devoção. Contudo, nós rejeitamos a compunção e buscamos as consolações exteriores, mundanas. A consolação do mundo é passageira, impermanente, não podemos desejá-la e muito menos podemos nos apegar a ela. Enquanto quisermos ser visíveis aos homens não o seremos a Deus e aos Mestres. Somente renunciando às consolações exteriores é que se torna possível chegar às consolações interiores ou divinas.

É nos momentos de sofrimento que nossas orações ganham força, que oramos com intensidade e alcançamos a devoção, o fervor. Infelizmente, quando o sofrimento cessa, o fervor termina junto e a oração esfria. Quando alcançamos a devoção devemos cuidar para que não esfrie, para que não enfraqueça.


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