Jardim dos Mestres

Noções Sobre a Mente

A mente discerne, julga, critica, rotula, imagina, fantasia, projeta, associa, compara, analisa, raciocina, cria conceitos a partir das sensações, impressões, experiências. O pensamento é uma função da mente, não é a própria mente.

A mente pode estar agitada, calma, tensa, concentrada, entorpecida. Para que possamos purificá-la, precisamos estudar, analisar e compreender alguns de seus mecanismos.

Podemos observar com certa facilidade que nossos pensamentos geram sensações. Se imaginarmos, ou se trouxermos à lembrança, cenas de medo, raiva, prazer, inveja, ansiedade, tensão, alegria, tristeza, poderemos sentir as sensações correspondentes, às vezes, até com a mesma intensidade do momento que ocorreram realmente. Com a imaginação, somos capazes de sentir cheiros, toques, gostos, sabores, de ver imagens e ouvir sons.

Sofrimento é preocupação, desespero, medo, autocobrança, é aquela ânsia insatisfeita no coração e na mente.

A mente atormentada tenta se agarrar a subterfúgios, tenta buscar um ponto seguro, um chão, um apoio. Mas o único lugar onde ela poderá encontrar essa zona de segurança é dentro dela mesma. Estes pontos não passam de estruturas rígidas, ideias fixas, ilusões, fantasias, críticas, valores, padrões, experiências, lembranças, sensações, conceitos e preconceitos arraigados. Esta busca por segurança é o medo da não existência.

Quando a mente encontra uma referência que lhe ofereça a sensação de segurança, agarra-se a ela com força. Então surge a posse e o apego. A posse nos traz o orgulho, a vaidade. Tornamo-nos orgulhosos e envaidecidos de tudo o que possuímos, ou acreditamos possuir.

O extremo apego baseia-se na crença da permanência das coisas – uma crença equivocada. Evidentemente, se tivéssemos a percepção da efemeridade da matéria, não nos apegaríamos a ela.

Os momentos, os estados, os fenômenos da mente e do corpo, surgem e desaparecem, mudam constantemente. Porém nos mantemos agarrados a estes eventos, a estes processos, e passamos a considerá-los como nossos. Acreditamos que isto é a realidade última da vida. Acreditamos nas histórias que a mente conta. Quando pensamos em termos de “eu”, “meu”, “minha”, “mim”, ficamos aprisionados, assim como quando pensamos em termos de “dele”, “seu”, “aquele”.

Queremos nos libertar da mente e de seus mecanismos, porém, não a liberamos. Ao contrário, prendemo-la, criamos pressões e tensões dentro dela, não relaxamos. Deixamos a mente se agarrar às coisas. Não só permitimos que ela se agite, como até incentivamos e alimentamos suas agitações. Nós torturamos a mente.

É preciso observar os pensamentos que passam pela nossa mente. Mas também é preciso sentir a mente e observá-la. Observemos a expressão aqui utilizada: “sentir a mente”.

Lutamos contra a mente ao invés de relaxá-la. Esta luta é uma evitação de seus fatores, de seus estados, das formações mentais. Todas as formações são impermanentes, transitórias, todas as formações se dissolvem. Assim, não há por que agarrar-se a elas, nem tampouco repudiá-las, assim como surgem, se vão, desde que não nos agarremos a elas.

Só quando sentimos a mente, quando observamos o que se passa dentro dela, em nosso corpo e em nosso coração, é que conseguimos nos distanciar, é que conseguimos perceber que não somos estas manifestações. Enquanto se tentarmos evitar, enquanto brigarmos com estas manifestações, estaremos presos à mente e suas reações.

Somos nós que construímos, fortalecemos, enrijecemos as formações da mente, os conceitos, os padrões, os valores.

Não é por acaso que o Budismo considera a mente como um sentido. Existe uma razão para isso.

É preciso sentir e observar as sensações da mente e na mente. Existe o sentir do coração e existe o sentir da mente. Precisamos conhecer os dois, pois eles se completam, interagem entre si, influenciam-se mutuamente.

Precisamos observar que tudo está na mente, precisamos sentir tudo o que está na mente. Observar e sentir suas mudanças, as mudanças dos estados mentais. Sentir os pensamentos surgirem, tomarem corpo, forma, sentir a mente reagindo a tais pensamentos e estados. Observar e sentir a agitação da mente, a pressão, a tensão, a opressão, a rigidez, o desespero, o impulso de agarrar-se e o impulso de fugir. Devemos observar, sentir, permanecer com essas sensações e permitir que passem.

Por exemplo, imaginemos uma situação onde estamos atrasados para um compromisso e alguém nos detém para uma conversa. A mente fica agitada, começamos a olhar para o lado, para a direção que queríamos ir, para a saída. Olhamos repetidas vezes para o ponto de fuga e não conseguimos nos livrar da pessoa. A mente quer sair daquela situação, quer fugir, e se inquieta.

Outro exemplo é quando nos vemos diante de algo que “devemos fazer”, mas queremos fazer outra coisa. Há também aquela situação em que duas pessoas esperam de nós ações distintas, então nos afligimos por não podermos agradar a ambas. Neste caso, a pressão que a mente produz é terrível. Outra situação em que a mente quer desaparecer, quer fugir, evitar o que está ocorrendo, é quando somos tomados pela sensação de vergonha.

Nas práticas de silenciar a mente, de meditação reflexiva, de concentração, de contemplação, de relaxamento, podemos perceber todos esses movimentos, estados e reações da mente. A partir da prática formal, podemos levar as percepções para a vida diária. A prática formal é o treino, a vida diária é o campo de batalha.

Ensinamentos budistas mostram que o vazio nunca muda. Assim, a mente vazia nunca muda, não se desespera, não enrijece, não se agita. Ao conquistarmos uma mente tranquila e serena ela será como um espelho.

O exercício de silenciar a mente aos poucos nos leva ao desapego dos pensamentos, este desapego é um distanciamento. Acreditamos que possuímos os pensamentos e com isso acabamos possuídos por eles. Este apego aos pensamentos é um contínuo agarrar-se, como se tal apego pudesse nos oferecer alguma segurança real. Todo apego está ligado a conceitos e preconceitos, a padrões e valores.

A prática meditativa nos leva também ao estado de leveza mental, pois quando nos agarramos a muitas coisas, tornamo-nos mentalmente pesados. Quanto mais nos prendemos a lastros, mais pesados vamos ficando.

O medo e a vergonha se fixam por causa da evitação. Toda evitação é uma tentativa de fuga, mas é também um agarrar-se ao pensamento. Quando nos enrijecemos, estamos com os pensamentos rígidos.

A falta de atenção, a falta de concentração, a ignorância, o desconhecimento dos processos e dos mecanismos da mente nos escraviza e nos faz sofrer.

A prática de ouvir os sons, de concentrar-se nos sons, ou de prestar atenção aos pequenos instantes de silêncio entre um som e outro é uma prática de concentração que nos leva a perceber o silêncio interior. Isto nos leva a parar de lutar contra os sons, a parar de impor resistência e de nos perturbarmos com os sons. Ao percebermos o silêncio interno durante essa prática, poderemos, aos poucos, levá-lo para a vida diária. Este silêncio interior é o centro a partir do qual passamos a agir. Conforme o praticamos e o levamos para vida, conforme o desenvolvemos, este centro vai se tornando cada vez mais permanente, constante.

Ao experimentarmos momentos mentais libertos, precisamos perceber que eles vieram de dentro de nós, do nosso interior, e não do exterior. Assim como não devemos culpar ninguém pelo que de errado ocorre em nossa mente, também não devemos elogiar quando se dá o contrário. O externo é muito pouco confiável e está fora do nosso controle.

Precisamos parar de olhar para o mundo externo e de agir a partir do que vemos nele. É preciso olhar para o mundo interno e agir a partir do mundo interno, do centro. Para lograrmos êxito nesta proposta, precisamos manter o foco e a concentração no mundo interno. O Mestre Samael nos diz que “para o sábio, o mundo interno é mais concreto que o mundo externo”. Realmente, precisamos perceber isso, precisamos viver isso.

Dominar a mente é exercer poder, autoridade sobre seus estados, mecanismos e funções. Dominá-la é controlá-la e, para tanto, é necessário utilizar métodos, fazer práticas.

Este é um processo gradual que envolve o estudo dos princípios mentais que aprisionam a alma, o estudo do que encarcera o entendimento. Este estudo, esta ciência é conhecida como probistmo.

A mente discerne, julga, critica, rotula, imagina, fantasia, projeta, associa, compara, analisa, raciocina, cria conceitos a partir das sensações, impressões, experiências. O pensamento é uma função da mente, não é a própria mente. Esta pode estar agitada, calma, tensa, concentrada, entorpecida. Não é possível dominar a mente sem antes conhecer e estudar suas funções, seus mecanismos e estados.

Todos nós acreditamos ter controle sobre ela. Porém, basta fazermos um exercício básico de concentração para rapidamente constatarmos o fato de não temos controle nenhum. Somos distraídos, os pensamentos passam e nos levam de um lugar para outro através de associações, lembranças, fantasias.

As associações agitam a mente e a levam ao sonho, à fantasia, à fascinação. Uma imagem se associa a outra, uma palavra a outra, uma pessoa a outra. O fluxo constante de pensamentos é causa de muitos sofrimentos e só pode ser controlado se nos dermos conta dele e de sua anormalidade. Toda vez que nos pegarmos em associações, precisamos interromper o processo, isso se inicia na meditação formal, como um treino, e aos pouco passa a fazer parte da vida diária. Dessa forma a mente vai se tranquilizando.

Ao iniciarmos uma meditação podemos perceber que a mente se divide em duas partes, uma atenta e outra desatenta. Na parte desatenta podemos observar o batalhar dos opostos, a luta das antíteses. Para que este batalhar de opostos termine, temos que estudar a dualidade apresentada pela mente, utilizando os processos de análise e síntese, dedução e indução, chega-se à compreensão, à sabedoria, então a mente fica quieta e em silêncio.

O pensamento pode ser uma ferramenta útil se for dirigido, controlado. Mas o pensamento mecânico, o devaneio, a fantasia, são inúteis, não servem para nada.

A imaginação é diferente da fantasia. A imaginação consciente é dirigida, objetiva, construtiva. Pode ser utilizada no trabalho interno para reconstituirmos cenas, eventos passados. Quando a fantasia termina vem a intuição. O intuitivo resolve problemas com facilidade, pois a intuição está além do batalhar dos opostos.

A mente recebe as impressões vindas dos sentidos e reage a elas, e estas impressões são a realidade das nossas vidas. As coisas em si mesmas não as vemos, o que vemos são apenas impressões, assim, vivemos uma fantasia, uma ilusão, pois o que julgamos ser a realidade são apenas impressões.

Como diz o Mestre Samael: “Não há coisa que mais doa do que a calúnia ou as palavras de um insultador. Se alguém for capaz de transformar as impressões que tais palavras causam, elas ficarão sem valor algum, isto é, ficam como um cheque sem fundos. Certamente, as palavras de um insultador não têm mais valor do que aquele que o insultado lhes dá. Assim, se o insultado não lhes der valor, ficam, repito, como um cheque sem fundos”.

Transformar as impressões é transformar a si mesmo. Se elas não são transformadas, pouco a pouco nós degeneramos. Existe um esforço para transformá-las e sair da entropia, deixar a mecanicidade, a inércia.

É necessário não nos identificarmos com as impressões e transformarmos as que chegam através dos sentidos. Se elas são sempre associadas da mesma forma, com as mesmas emoções, sensações, lembranças, nada muda, seguimos com nossas reações mecânicas e equivocadas. Seguir cometendo sempre os mesmos erros é contumácia.

É necessário transformar as impressões, mudar a forma de pensar. Somos responsáveis por nossas impressões, temos que aprender a selecioná-las. Somos responsáveis pela transformação de nossas impressões, podemos nos preparar para os eventos e nos comportar de maneira diferente


22 de janeiro de 2013

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