Jardim dos Mestres

O Método da Respiração

A prática de observar a respiração é encontrada em praticamente todas as escolas do Budismo. Iniciamos esta prática buscando uma postura adequada, relaxando o corpo e tranquilizando a mente. Seguimos prestando atenção à respiração. Respire suavemente, sem querer controlá-la, sem filosofar sobre ela, simplesmente perceba a inspiração e a expiração, apenas preste atenção e busque uma respiração confortável, que pode ser diferente para cada pessoa. Respire e solte, a cada expiração relaxe mais. Pode-se utilizar uma palavra ou mantra para auxiliar a concentração.

Abandone tudo, deixe as preocupações de lado. Permita-se desfrutar, estar em paz e sentir contentamento. Não deseje fazer nada de especial. Não deseje mais coisa alguma. Não deseje estar em local ou situação diferente. Simplesmente seja, sem expectativas. Simplesmente esteja. Nada falta. Não há lugar nenhum para ir. Não há nada para fazer.

Se conseguirmos sustentar a concentração na respiração, lentamente, ela irá ficando cada vez mais refinada e sutil e se tornará bela. Num determinado ponto, parecerá que a respiração sumiu, que se respira por todo o corpo, por todos os poros. Perceba as sensações. A respiração será então motivo de contentamento e satisfação, o que significa contentamento com o momento presente, com o simples, com o que está ocorrendo. E é isso que gerará a concentração de acesso ao primeiro jhana.

A tranquilidade indica que a nossa capacidade de concentração está melhorando. No início, ela ainda é vacilante, mas aos poucos vai se tornando mais firme e resistente a perturbações.

Parar o diálogo interno, abandonar o passado, as expectativas com o futuro e aplicar e sustentar a atenção no momento presente são os passos para o primeiro jhana. Quando a mente silencia, experimentamos a paz e a felicidade. Este estágio é caracterizado por contentamento, satisfação, pensamento dirigido e sustentado, por profunda paz, tranquilidade e felicidade, que é uma sensação física de êxtase, uma energia regozijante que percorre o corpo. Estes estados de paz, tranquilidade e felicidade são os verdadeiros objetivos do primeiro jhana, que é alcançado de forma volitiva, pela compreensão do processo de causa e efeito, surgimento e cessação dos estados internos. Assim, se não for possível reproduzir o estado, então não se alcançou este estágio.

Quando sentimos felicidade ou tristeza, não podemos achar que esses sentimentos vieram de fora, que foram causados. A felicidade que experimentamos através de coisas externas é pobre, fugaz, inferior, grosseira, condicionada.

Depois, sem abandonar a respiração, dirigimos a atenção para este estado. Aos poucos, este estado perde a força e parecerá se esvair, mas a mente irá buscar por ele novamente, pois no primeiro jhana a mente ainda é vacilante.

A maestria e compreensão do primeiro jhana e o desapego de seus fatores levarão ao segundo, que surge quando abandonamos a vacilação da mente, o pensamento dirigido e sustentado, as perturbações do primeiro jhana. Este estágio é caracterizado por paz, contentamento, felicidade e unicidade da mente. Nele, a mente estará mais estável do que no anterior, mas ainda existem perturbações que devem ser abandonadas.

Então, permanecendo com a atenção na respiração e abandonando as sensações e a felicidade, entra-se no terceiro jhana. Este estágio é caracterizado pela felicidade e unicidade da mente. Agora a atenção é mais equilibrada, refinada e sem intervalos.

Abandonando a felicidade e o sofrimento, entra-se no quarto jhana, estágio que é caracterizado por equanimidade e unicidade da mente. Aqui a atenção é sólida e estável.

É preciso desapego, renúncia, coragem, para entregar-se e deixar que estes estados aconteçam, pois os sentidos ficam em suspensão. Se tentarmos controlá-los, não conseguiremos avançar nos jhanas. Não é necessário fazer nada senão abandonar-se e deixar que tudo aconteça.

O refinamento de um jhana leva ao jhana seguinte, cada um é mais profundo e refinado do que o anterior. Os mais profundos são mais duradouros, podendo durar horas. A intensidade destes estados pode variar de experiência para experiência, de pessoa para pessoa.

Conforme penetramos os jhanas, a clareza e a tranquilidade da mente aumentam. Nestes estados, ela encontra felicidade, por isso, busca-os novamente e assim sua agitação diminui.

Com o tempo e a prática, seremos capazes de manter estados de paz, felicidade e contentamento em qualquer lugar, em qualquer situação, mesmo nas mais difíceis.

Assim, compreendemos que a prática dos jhanas é uma prática de desapego, renúncia, auto-entrega, uma prática que nos leva à compreensão da natureza e dos fenômenos da mente, do surgimento e da cessação dos estados internos.


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