Jardim dos Mestres

O Sofrimento

A primeira das Quatro Nobres Verdades ensinadas pelo Budismo, é a Verdade do Sofrimento, seguida pela Verdade da Causa do Sofrimento, que é a segunda, depois pela Verdade da Extinção do Sofrimento, a terceira, e pela Verdade do Caminho Óctuplo, que é a quarta e que representa o caminho para a extinção do sofrimento.

O sofrimento é uma realidade da humanidade, uma característica inerente à existência, conforme assinala a Primeira Nobre Verdade, mas, por outro lado, é também uma realidade que pode ser eliminada, como anuncia a Terceira Nobre Verdade. Assim, somente aceitando, assumindo, percebendo o sofrimento, tomando consciência do sofrimento, é que podemos nos libertar dele, negar ou tentar evitar apenas gera mais sofrimento.

Desejar que a vida tenha apenas momentos agradáveis é algo irrealista. A vida é feita de bons e maus momentos, não devemos ficar eufóricos com os bons e nem entrar em depressão com os maus. Se a situação estiver agradável, então tudo bem, e se a situação estiver desagradável, então tudo bem também. Tudo passa, tanto os bons quanto os maus momentos, sofrer não ajuda em nada. Basta cultivarmos a paciência, a tolerância, a tranquilidade, o contentamento, e agirmos com sabedoria diante das situações que se apresentarem.

As dores psicológicas, os sofrimentos e os problemas são gerados, alimentados e sutentados por nós mesmos, por nossas próprias mentes.

Um evento, um estímulo qualquer, pode nos trazer a lembrança de uma experiência de sofrimento e dor. Se dermos importância a estas lembranças que surgem na mente, se acreditarmos que são concretas, reais, se permitirmos que elas permaneçam em nossa mente ou se as rejeitarmos, então sofreremos. Precisamos apenas deixar que passem. Os sofrimentos psicológicos podem ser eliminados com a mudança de pensamento e com o silenciar da mente.

Não conseguimos diferenciar o presente, o passado e o futuro, o abstrato e o concreto. A maior parte de nosso sofrimento é gerada pela evitação do sofrimento e da dor. Sofremos com lembranças de sofrimentos passados, que são apenas memórias, pensamentos, são como lembranças de sonhos. Também sofremos com preocupações com o futuro, com as tentativas de evitar a repetição de sofrimentos, de eventos dolorosos que ocorreram no passado. As preocupações com o futuro estão apenas em nossa imaginação, em nossa mente, não são reais.

Quando falamos de sofrimento, não estamos apenas nos referindo à grandes eventos, dramas e tragédias pessoais, grandes “perdas”. Não estamos apenas nos referindo à sofrimentos físicos, estamos nos referindo à todos os descontentamentos, insatisfações , incômodos, desconfortos, à todo pequeno sofrimento de nosso dia-a-dia, sejam eles físicos ou psicológicos, sejam eles fome, sede, sono, cansaço ou medo, tristeza, mágoa, angústia.

Quando algum sofrimento surge queremos nos livrar dele o mais rapidamente possível. Sempre negamos, rejeitamos, nunca os observamos para podermos compreender o que realmente existe ali.

Uma outra característica de nossas mentes que gera muito sofrimento é a tendência que temos para querer finalizar as situações. Discussões, tarefas sem solução, circunstâncias em que nos arrependemos de termos agido desta ou daquela forma, geram pensamentos confusos que nos atormentam, que teimam em surgir e ressurgir em nossas mentes. Ficamos remoendo e remoendo essas ideias, esses pensamentos e, mesmo quando tentamos nos livrar deles, eles voltam de uma forma ou de outra.

Não ter dinheiro ou estar endividado, por exemplo, pode ser um fato inquestionável na vida de um indivíduo, mas é a mente que transforma este fato em problema. Na realidade os problemas, os sofrimentos, não existem. Fatos são apenas fatos. A realidade é o que é. Existem bons e maus momentos, situações agradáveis e desagradáveis, e é a mente que os transforma em problemas e cria o sofrimento. Não adianta ficarmos pesando e remoendo as situações que precisam de uma ação prática, precisamos apenas decidir o que fazer e aguardar o momento da ação.

Toda frustração, toda decepção, nasce de uma ilusão, e toda ilusão é criada pela mente. São desejos muitas vezes utópicos, impossíveis, somos nós que criamos os sonhos, as fantasias, as ilusões e depois sofremos quando não se realizam. Se pararmos de criar ilusões então não sofreremos com desilusões.

Outra das grandes causas do sofrimento é a tendência de pensarmos apenas em nós mesmos o tempo todo. Por isso, muitos Mestres recomendam a bondade, o altruísmo, a compaixão, para que, aos poucos, criemos o hábito de olhar realmente para fora, de pensar nos outros.


12 de fevereiro de 2013

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