Jardim dos Mestres

O Vazio

Estudar é necessário, é importante ter uma visão teórica da natureza da mente, porém a realidade não é questão de conceitos, de lógica, mas sim de percepção. O conhecimento da prática não é a prática. O que é aprendido precisa ser investigado dentro de nós mesmos, precisa ser percebido diretamente. É necessário ler e ouvir muitas vezes sobre o assunto e, mais do que tudo, refletir e meditar muito.

Vivemos numa condição ilusória, fascinados, alheios à realidade. Não questionamos nossas percepções, pensamentos, sensações, emoções, impressões.

Os sentidos nos trazem sensações e impressões. Construímos conceitos através de percepções. A mente dualista divide, classifica, rotula. Das divisões conceituais surgem as preferências, que expressamos como apego e aversão, costumes, hábitos e padrões mecânicos.

Acreditamos sempre que é preciso obter algo que vai nos trazer felicidade, como se isso possuísse a habilidade inerente de trazer felicidade. Quando conseguimos, no início parece perfeito, mas logo depois começamos a ver defeitos. Então vamos tentar obter outra coisa e sempre culpamos os fatores externos pela nossa infelicidade, nunca assumimos a responsabilidade.

Temos a impressão de que objetos, pessoas, situações, emoções, pensamentos, possuem qualidades ou atributos próprios, independente de nossos condicionamentos, conceitos, tendências, preferências, desejos e repulsas. Aprendemos que tudo é dotado de existência real e permanente, que as coisas possuem uma habilidade ou qualidade inerente capaz de nos satisfazer, de nos trazer paz e felicidade. O sofrimento surge destas visões equivocadas da realidade, que estão profundamente enraizadas em nós.

Boa ou má, atraente ou repulsiva, parecem ser qualidades próprias, independentes, inerentes às situações, objetos, pessoas, mas, em realidade, são criadas e projetadas por nossas próprias mentes.

Objetos, pessoas, situações, emoções, pensamentos, são vazios, são desprovidos de realidade própria, não possuem qualidades ou atributos próprios, independentes, como se existissem por si mesmos, não possuem realidade intrínseca, não possuem uma qualidade ou capacidade própria de causar felicidade ou sofrimento. Mas normalmente negamos, não queremos ver que tudo carece de qualidades próprias, nosso interesse na realidade é pequeno.

Somos nós mesmos que projetamos sobre os objetos os nossos conceitos, padrões, e cremos que isso lhes é próprio. Cada pessoa tem suas próprias preferências, seus gostos, suas experiências. Se os objetos possuíssem qualidades ou capacidades próprias, nunca falhariam, todos os perceberiam da mesma forma, eles causariam sofrimento ou felicidade a todos.

Se não tivéssemos os cinco sentidos, o mundo não existiria para nós, pois a nossa percepção está presa aos sentidos, às nossas experiências, conhecimentos, lembranças, memórias. Nossas percepções são subjetivas.

Quando percebemos algo como agradável dizemos: “Que bom, que alegria!”. Quando percebemos algo como desagradável dizemos: “Que ruim, que tristeza!”. Os sentidos controlam nossas reações, nossos relacionamentos. Eles nos dão impressão de segurança, são a nossa referência.

A percepção do que chamamos de realidade nada mais é do que um conjunto de projeções da mente. A compreensão da realidade vazia e impermanente reduz o apego, vai gradualmente nos tornando mais tranquilos, bondosos, pacientes, tolerantes; os relacionamentos melhoram, a vida torna-se mais equilibrada e satisfatória.

Mas, antes de percebermos a realidade das coisas, a impermanência e ausência de qualidades inerentes, precisamos perceber nossos erros, conceitos equivocados, padrões, defeitos. Dominar a mente e compreender a realidade é um trabalho difícil, lento e gradual.


12 de fevereiro de 2013

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