Jardim dos Mestres

Dhammapada

VERSOS GÊMEOS

1 — É o mental, em tudo, o elemento primordial. O mental é predominante; tudo do mental provém. Se com mau mental o homem fala ou age, segue-o tão de perto o sofrimento como a roda vai após a pata do boi que puxa o carro.

2 — É o mental, em tudo, o elemento primordial. O mental é predominante; tudo pelo mental se faz. Se com mental purificado o homem fala ou age, acompanha-o tão de perto a felicidade como a sua inseparável sombra.

3 — “Ele me vilipendiou. Ele me maltratou. Ele me rebaixou. Ele me roubou”. Nunca se acalma o ressentimento aos que a tais pensamentos dão acolhida.

4 — “Ele me vilipendiou. Ele me maltratou. Ele me rebaixou. Ele me roubou”. Não há ressentimento para os que jamais dão guarida a tais pensamentos.

5 — Em verdade pelo ódio não se destrói o ódio. Destrói-se o ódio pelo amor; é este um preceito eterno.

6 — Esquece-se a mor parte dos homens de que todos, um dia, morreremos. A luta suaviza-se para os que nisso meditam.

7 — Quem nos prazeres materiais se compraz e cujos sentidos são insubmissos; quem é na alimentação intemperante, preguiçoso, inativo, este, na verdade, por Mâra é abatido, como pelo vento o é o fraco arbusto.

8 — Contra quem só para os prazeres não vive, e cujos sentidos à razão se submetem e na alimentação é temperante, vive cheio de fé e constante, contra tal, em verdade, Mãra pode tanto como contra o rochedo o vento.

9 — Indigno é de usar o hábito amarelo quem de suas impurezas não se mundificou, quem carece de moderação e lealdade.

10 — Mas quem se purificou, e firme na virtude permanece, que tem o domínio de si mesmo e cultiva a temperança e a verdade, este é, de fato, digno de envergar o hábito amarelo.

11 — Enquanto tomarmos pela verdade o erro e pelo erro a verdade, teremos um mental falso, não alcançaremos a verdade, e só vãos desejos possuiremos.

12 — Mas reconhecendo por justo o que justo é, e por falso o que é falso, à verdade chegaremos e justos desejos pretenderemos.

13 — Como em casa cujo teto está avariado entra chuva, assim no ânimo instável penetra a cobiça.

14 — Como em casa bem coberta de palha a chuva não penetra, assim em ânimo equilibrado não entra, a paixão.

15 — Lamenta-se, neste mundo e no outro, o malfeitor. Em ambos os estados se lamenta. Diante da fealdade de seus atos geme e aflige-se.

16 Neste mundo e no outro quem procedeu bem é feliz. É feliz, aqui e lá, diante da pureza de suas obras.

17 — Quem o mal fez, sofre neste mundo e no outro. Sofre em ambos os estados. Persegue-o o pensamento do mal praticado; e o seu tormento ao entrar nos círculos do Niraya aumenta ainda.

18 — Quem faz o bem é feliz neste mundo, é feliz no vindouro; é feliz em ambos os estados. Reconforta-o o pensamento do bem realizado. Ao entrar nos círculos dos devas (seres celestes), maior é ainda sua felicidade.

19 — O falar o homem muito da Doutrina, mas não agir consoante ela, é apenas melhor que o vaqueiro que só sabe contar alheio gado. Não é ele discípulo do Bendito.

20 — Falar o homem pouco da Doutrina e entretanto os preceitos lhe praticar, rejeitando toda cobiça, toda ira e toda ilusão, se possui o verdadeiro conhecimento e o mental livre completamente de todos os liames, se a nada deste mundo ou de outro qualquer se ligar, este, sim, é discípulo do Bendito.

DO RECOLHIMENTO INTERIOR

21 — É o recolhimento interior o caminho do nibbana. É a negligência a senda da morte. Não perecem os recolhidos. Mortos já estão os negligentes.

22 — Os que, bem fundados neste conhecimento, no recolhimento se adiantaram, nele se deleitam e no modo de vida dos áriyas se comprazem.

23 — Os sensatos, meditativos, perseverantes, que lutam contra si mesmos sem tréguas, atingem o nibbana, que é o sumo bem.

24 — Quem saiba o zelo manter, ser puro em obras, proceder de modo refletido, domar as paixões, viver segundo a moral, este tal verá crescer sua boa fama.

25 — Pela diligência, pelo recolhimento interior, pelo auto-domínio, deve o homem esclarecido tornar-se uma ilha a qual jamais as vagas poderão submergir.

26— Na sua insensatez entregam-se os néscios à negligência. Conserva o verdadeiro sábio o recolhimento interno como o tesouro mais precioso.

27 — Não vos deixeis cair na inércia, nem nos prazeres sensuais. Quem à meditação se dá, ampla messe de alegria colhe.

28 Ao se livrar o homem recolhido da negligência, tendo escalado os mirantes da sabedoria, lá do alto olha ele para os insensatos. Com serenidade contempla as multidões aflitas, como divisa as gentes da planície o montanhês.

29 — Entre os descuidados zeloso, entre os sonolentos desperto, avança esclarecido, avança o sábio como o corcel que deixa após si pobre rocinante.

30 — É admirado o recolhimento. A negligência é vituperada. Pelo recolhimento elevou-se Indra à mais alta das esferas divinas.

31 — Move-se como a chama o bhikkhu que teme a negligência e no recolhimento se deleita, como consumidos vê ele em breve cair todos es obstáculos, grandes e pequenos.

32 — O bhikkhu que na reflexão se compraz, e teme a negligência, não mais pode recair. Do nibbana ele se apropínqua.

O MENTAL

33 — Como o fabricante de flechas cuida em que sejam elas direitas, assim corrige o sábio o pensamento instável e incerto, difícil de se manter reto, difícil de guiar.

34 — Qual peixe fora d’água nosso espírito treme e anela por abandonar o reino de Mara.

35 — Difícil de governar, instável é o mental sempre à cata de prazeres. Bom é dominá-lo; a mente domada traz felicidades.

36 — Que o sábio seja senhor dos pensamentos, por que eles são sutis e difíceis de agarrar e sempre a cata de prazeres; a mente bem guiada traz felicidade.

37 — Errando ao longe, solitário, inconsistente e oculto no recesso do coração, tal é o mental. Quem chega a submetê-lo, liberta-se dos vínculos de Mara.

38 — Aos espíritos instáveis, ignorantes da verdadeira lei, e carecentes de serenidade, a sabedoria não chega em sua plenitude.

39 — Não tendo pensamentos agitados, nem a mente turbada pelo desejo, se ele não mais se inquieta com o bem e o mal, tal homem bem desperto desconhece o temor.

40 — Sabendo-se ser o corpo frágil como um vaso, e fortificando o mental como uma cidadela, ataquemos Mâra com o gládio da sabedoria, e conservemos ciosamente o vencido.

41 — Daqui a pouco este corpo jazerá por terra abandonado, privado de entendimento como um bordão.

42 — O inimigo fere o inimigo, o que odeia fere o que o odeia, pior ainda é o mal causado pelo mental mal aplicado.

43 — Pai, mãe, nenhum parente nos tornará tão felizes como o mental bem dirigido.

AS FLORES

44 — Quem dominará êste mundo e o reino de Yama (a morte) com suas divindades? Quem saberá reunir as estrofes do Sublime Ensino como ramilhetes de flores?

45 — O discípulo dominará êste mundo e o reino de Yama com suas divindades; o discípulo saberá reunir habilmente as estrofes do Sublime Ensino como quem tece grinaldas de flores.

46 — Aquêle que julga ser o corpo efêmero como a espuma e ilusório como a miragem, desviará a flecha florida de Mara e não verá o rei da morte.

47 — O homem que se dedica a colhêr prazeres como flores, é agarrado pela morte, que o puxara como a inundação arrasta a aldeia adormecida.

48 — O que colhe avidamente as flores do prazer é surpreendido pela morte antes mesmo da saciedade.

49 — Que o anacoreta viva em sua aldeia como a abêlha recolhe o néctar sem prejudicar a côr e o perfume da flor.

50 — Não vos ocupeis das ásperas palavras alheias nem de seus atos, nem tampouco de suas omissões. Sêde antes cônscios dos próprios atos e das próprias negligências.

51 — Semelhantes a belas flores coloridas, fulgentes e inodoras são as palavras eloqüentes do que não age.

52 — Semelhantes a belas flores fulgentes e perfumosas são as palavras cheias de senso e frutuosas do que age.

53 — Como um punhado de flores pode fazer quantidade de capelas, assim por um só mortal muitas boas ações devem ser praticadas.

54 — O odor das flores, do sândalo, do incenso ou do jasmim não domina o vento; mas o perfume da sabedoria sobrepuja o vento, Por toda parte espalha o homem santo o olor da virtude.

55 — Muito acima do aroma do sândalo, do incenso, do lódão, ou do jasmim, reina o perfume da sabedoria.

56 — Fraco é o perfume do incenso e do sândalo comparado ao da sabedoria que ascende até as mais altas divindades.

57 — No que tange aos sêres de contínuo recolhidos e libertados pela soberana sabedoria, Mâra ignora o caminho por êles seguido.

58-9 — Como o lírio fragrante nasce num montão de lixo à margem do caminho, assim o discípulo do Sublime Iluminado brilha pelo saber entre a multidão dos cegos dêste mundo.

O INSENSATO

60 — Longa é a noite do vigilante, longo é o caminho para quem está cansado; longa é a série dos nascimentos e das mortes dos insensatos desconhecedores da verdadeira lei.

61 — Não encontrando o viandante quem lhe seja melhor ou igual, que ousadamente ele continuie o caminho, solitário. Não há sociedade com o néscio.

62 — “Esses filhos são meus, essas riquezas são minhas”. Tais são os pensamentos atormentadores do néscio. ÊIe não é senhor de si mesmo; muito menos lhe pertencem filhos e riquezas.

63 — O néscio que conhece sua estultícia, nisso é, pelo menos, sábio. Mas o insensato que se julga sábio, é justamente tido por louco entre os homens.

64 — O néscio convivendo com o homem sábio, mesmo durante toda a vida, ignora tanto a verdade como a colher o gosto da sopa.

65 — O homem inteligente tratando um só minuto com o sábio, conhecerá de pronto a verdade, como a língua sente o sabor da sopa.

66 — Os néscios, os loucos, são os seus piores inimigos; amargo é o fruto que colhem de suas más ações.

67 — Não é bom praticar obras que tragam tristezas e das quais o fruto será colhido com lágrimas e lamentos.

68 — Bem feito é o ato não produtor de nenhuma aflição e cujo fruto é colhido com alegria e júbilo.

69 — ‘É doce como o mel’, assim pensa o néscio do mal feito que ainda não amadureceu; mas quando o mal frutifica, então sofre por isso o estulto.

70 — Alimente-se o insensato, durante meses, de erva kuxâ, nem por isso igualará a décima-sexta parte dos estados dos ornados (arahans).

71 — Não se muda de repente o mal feito como o leite que se coagula. Como centelha sob cinzas, um belo dia o mal irrompe sobre o néscio.

72 Logo que a vã ciência do insensato dá fruto, então se acaba a felicidade do néscio.

73 — Vêem-se estultos buscar falsa reputação e o primeiro lugar entre os bhikkhus; prelazias nos mosteiros e a deferência do povo da vizinhança.

74 — “Que seculares e religiosos me julguem perfeito, e se submetam às minhas menores ordens”. No ápice do orgulho assim blasona o tolo.

75 — Existe uma via conducente aos bens terrestres, outra há que leva ao nibbâna. Sabedor disto, o bhikkhu, discípulo do Supremo Iluminado, não aspira às honras, mas vota-se à solidão.

O SÁBIO

76 — Considera quem te repreende os defeitos como se êle te desvendasse tesouros. Liga-te ao sábio que te reprova os erros, Quem isto faz, torna-se melhor, não pior.

77 — Que se derrame em advertências, em exortações, que se repudie o mal; a gente será amada dos homens justos e detestada pelos improbos.

78 — Não tenhas por amigos os obreiros do mal ou os de alma vil. Ajunta-te aos bons, busca a amizade dos melhores dentre os homens.

79 — Quem bebe na fonte da Doutrina, vive feliz com ânimo sereno. Alegra-se sempre o sábio com a Doutrina ensinada pelos áriyas.

80 — Os aguadeiros conduzem a água a seu talante; os fabricantes de flechas as ajeitam; os carpinteiros burilam a madeira; os sábios a si mesmos vencem.

81 — Tal a rocha não abalada pelo vento, o sábio não é atingido nem pelo vitupério nem tampouco pelo elogio.

82 — Assim o sábio, depois de penetrado pela Doutrina, se torna plácido como lago profundo, sereno e tranqüilo.

83 — Por onde quer que os verdadeiros sábios andem não são sedentos de prazer. Tocados pela dor ou pela alegria, nêles nenhuma alteração se vê.

84 — Para o próprio bem ou para o alheio, não deseja o sábio filhos, fortuna ou mando. Não funda o próprio êxito na falência alheia. Ele é dotado de virtude, de inteligência e de justiça.

85 — Poucos homens há que alcançam a outra margem. A maioria vai e vem sem ousar atravessar.

86 — Mas os que ouviram e vivem a expressão perfeita da Doutrina, qualquer que seja a dificuldade da travessia, vencem o domínio da morte.

87 — Abandonará o sábio os caminhos tenebrosos e seguirá os luminosos. Deixará o lar pela solidão buscando aí os prazeres que lá pareciam ausentes.

88 — Extinta a sêde dos desejos e o apêgo às volúpias, lavar-se-á o sábio de tõdas as imundícies da mente.

89 — Aquêle, cujo espírito está treinado em todos os graus do saber (discernimento da verdade, energia, alegria do verdadeiro, serenidade, meditação, equanimidade) e desapegado de tudo, se compraz na renúncia; cujos apetites foram subjugados e está inundado de luz, êste, mesmo aqui no mundo, atinge o nibbâna.

O VENERÁVEL (ARHAT)

90 — Não há desgraça para quem terminou sua viagem, abandonou todo cuidado, libertou-se de tôdas as partes, rejeitou todos os apegos.

91 — Bem resoluto êle parte, não mais lhe basta sua morada; como os cisnes ao abandonarem o lago, deixa de após si a casa, o lar.

92 — De quem nada possui, que só toma o alimento estritamente necessário, e percebeu a vaidade do século, é tão difícil de seguir a rota como a dum pássaro voando.

93 — De quem perdeu o desejo e o amor das ilusões da vida, que pouco se lhe dá alimentação e se embriagou do espaço e liberdade, é. tão difícil de seguir o rumo como o dum pássaro voando.

94 — Os próprios deuses invejam aquêle cujos sentidos foram domados (como o são os cavalos pelos cavaleiros), que se purgou de todo orgulho e se libertou das concupiscências.

95 — O cumpridor do dever é impassível como a própria terra. Firme como u’a coluna, transparente como o lago sem limo; o ciclo de suas vidas terminou.

96 — Tranqüilos são os pensamentos, palavras e obras do que se libertou e chegou à calma, pela perfeição da sabedoria.

97 — É o mais excelente de todos os homens quem não é crédulo, mas conhece o incriado, quem rompeu tôdas as cadeias do mundo, destruiu todo elemento de novo nascimento.

98 — Quer vivam os homens veneráveis (arahants) numa choupana, num bosque, na planície ou sôbre a água profunda, é sempre agradável com êles conviver.

99 — Deliciosas são as florestas desdenhadas pela multidão; aí acha deleite o homem venerável e sem paixões, porque não busca os prazeres.

OS MILHARES

100 — Melhor que mil palavras sem senso é uma só palavra razoável capaz de trazer paz ao ouvinte.

101 — Melhor que mil versículos carecentes de sentido é um único versículo lógico podendo dar paz ao ouvinte.

102 — A cem versículos desprovidos de senso é preferível um só versículo da Doutrina dador de paz ao ouvinte.

103 O maior dos conquistadores não é o que, em batalha, vence milhares de homens, mas o vencedor de si mesmo.

104 A vitória sobre si mesmo alcançada é mais importante do que a obtida sobre todos os povos.

105 Nem deus, nem gandhabba, nem Mâra, nem Brahmã podem trocar tal vitória em derrota.

106 — Se, mês após mês e durante um século, se oferecem sacrifícios aos milhares, e num único momento se presta culto a um ser penetrado de sabedoria, esta única homenagem vale mais que tais inúmeros sacrifícios.

107 — Se um homem, durante cem anos, mantiver a chama no altar de Àgni e, por outro lado, render um só instante honra a alguém que domou os instintos, esta breve homenagem vale mais que a longa devoção.

108 — Quaisquer que sejam os sacrifícios e oblações que possa alguém oferecer no decurso de um ano inteiro para daí auferir mérito, tudo isso não valeria mesmo quatro vêzes menos que a homenagem tributada ao justo.

109 — Quem é respeitoso para com os anciães será quatro vêzes próspero: na longura de seus dias, na beleza, na alegria e na saúde.

110 — Vale mais um só dia vivido na sabedoria e na meditação que cem anos passados no vício e na sensuallidade.

111 — Vale mais um só dia vivido na sabedoria e na meditação que um século passado na preguiça e na inércia.

112 — Vale mais um só dia vivido na sabedoria e na meditação que cem anos passados na estultícia e na ignorância.

113 — Vale mais que um século vivido na ignorância do transitório um só dia decorrido no sentimento de que tudo nasce somente para morrer.

114 — Vale mais que um século vivido na ignorância da senda do nibbâna um simples dia passado na contemplação do caminho que não conduz à morte.

115 — Vale mais que um século vivido na ignorância da Verdade Suprema um só dia decorrido na contemplação da Verdade Suprema.

O MAL

116 — Apressa-te para o bem, deixa atrás de ti os maus pensamentos. Fazer o bem sem entusiasmo, é ter espírito que se compraz no mal.

117 — Se alguém agir mal, evite de nisso reincidir. Que nêle não se deleite. Dolorosa é a acumulação do mal.

118 — Se alguém agir bem, persevere e nisso se alegre. Bem-aventurada é a acumulação do bem.

119 — Pode o malvado conhecer satisfação enquanto ainda está verde a má ação, mas, uma vez esta amadurecida, o malvado conhece a infelicidade.

120 — Pode o homem de bem passar maus dias, enquanto a boa ação ainda está verde; mas, uma vez ela amadurecida, conhece dias felizes quem faz o bem.

121 — Não trates levianamente o mal, dizendo: “Dêle sempre estarei isento . Gôta a gôta o cântaro se enche; assim o néscio, a pouco e pouco, se encherá de maldade.

122 Não trates levianamente o bem, dizendo: “Nünca o atingirei Gôta a gôta se enche o cântaro; assim o sábio, aos poucos se encherá de bondade.

123 O negociante, portador de grandes riquezas e acompanhado apenas de fraca comitiva, evita as rotas perigosas, e o homem que ama a vida evita o veneno; procede então da mesma sorte para com o mal.

124 Pode tocar impunemente a peçonha a mão sã e não ferida, Age assim porque o mal não afeta o homem de bem.

125 Ofender a pessoa pura, inocente e indefesa, é expor-se ao retorno da injuria como quem tivesse atirado poeira contra o vento.

126 — Certas pessoas voltam à terra; os maus vão para as esferas do niraya; os justos sobem para as esferas celestes; os libertos de todo desejo alcançam o nibbâna.

127 Em nenhuma parte do mundo inteiro há lugar onde encontre o homem abrigo contra suas más ações: nem nos ares, nem nas profundezas do oceano, nem nos antros dos rochedos.

128 Nos ares, nas profundezas do oceano, nos antros dos rochedos, em nenhuma parte do mundo inteiro há lugar onde o homem ache guarida contra a morte.

O CASTIGO

129 — Tremem todos diante do castigo; temem todos a morte. A julgar os outros por vós mesmos, não mateis, não sêde causa de crimes.

130 — Tremem todos diante do castigo; a vida a todos é cara. A julgar por vós mesmos os outros, não mateis, não sêde causa de crimes.

131 — Quem quer que, buscando a própria felicidade, fere criaturas ávidas de felicidade, não a obterá após esta vida.

132 — Quem quer que, procurando a próprIa felicidade, não fere criaturas ávidas de felicidade, a obterá depois desta vida.

133 — Não dirijas a ninguém palavras pesadas; elas voItar-se-ão contra ti. Cheias de sofrimento são as palavras coléricas; quem as pronunciou sofrerá o choque de retorno.

134 — Se ficares tão silencioso como o gongo quebrado, entraste no nibbâna; tôda violência se aplacou em ti.

135 — Como o pastor com o báculo leva o rebanho para o pasto, assim a velhice e a morte conduzem a vida para fora de todos os seres vivos.

136 — Pratica o néscio o mal por falta de inteligência, é queimado e atormentado por suas ações como pelo fogo.

137 — Fazer mal a quem não o comete, ofender quem não ofende, é apropinquar-se rapidamente de um destes dez estados:

138 — Penosas dores corporais, acidentes, doenças graves, loucura.

139 — Luta com a autoridade, calúnia grosseira, perda dos parentes, destruição dos bens.

140 — Incêndio da casa; e, no momento da dissolução do corpo, a passagem ao niraya.

141 — O costume de andar nu, o de ter os cabelos entrançados, o de espalhar poeira pelo corpo, o jejum, o dormir no chão, o fato de se cobrir de cinzas, as prosternações, nada disso purifica o mortal, ainda não livre das concupiscências e da dúvida.

142 — Vestido embora com apuro, se o homem cultiva a tranquilidade de espírito, é manso, resignado, senhor de si, casto, e a ninguém faz mal, tal homem é brâmane,
é asceta, é bhikkhu.

143 — Há no mundo asceta tão imaculado para não merecer nenhuma censura, assim como o corcel puro sangue não merece nenhuma chicotada? Como o cavalo
fogoso tangido pelo chicote, sêde vivos e rápidos para a meta.

144 — Pela confiança, pela virtude, pela energia, pela meditação, pela pesquisa da verdade, pela perfeição do saber e da conduta, pela concentração, deixai atrás o
grande sofrimento da vida.

145 — Os lavradores fazem regos que conduzem a água. Os fabricantes de flechas modelam-nas, Os carpinteiros vergam a madeira. Os sábios se dominam a si mesmos.

A VELHICE

146 — Que prazer, que alegria pode haver num mundo devastado pelos tormentos? O tu que estás envolto em trevas, não buscarás a luz?

147 — Olha esta pobre forma mascarada, esta massa de elementos malsãos cheia de enfermidades e vãos desejos, onde nada mais resta.

148 — Esta forma frágil acabada pela velhice. que é senão ninho de doenças, de decrepitude e de corrução? A morte é a sua vida.

149 — Que alegria pode haver ao contemplar êsses ossos embranquecidos, dispersos como cucúrbitas no outono?

150 — Nesta fortaleza construída de ossos recobertos de carne e sangue, moram a arrogância e a simulação, a decrepitude e a morte.

151 — Pelo uso são gastos os carros pomposos dos rajás. Nosso corpo ten de também para aniquilamento certo, a piedade dos justos não sofre a velhice, mas passa o saber do sábio a outro sábio e não encontra jamais a destruição.

152 — Envelhece o homem ignorante à maneira do boi: aumenta de peso não de sabedoria.

153 — Atravessei muitos nascimentos no ciclo das vidas e das mortes, em vão procurei o arquiteto da casa. Que miséria, nascer e renascer sem fim!”.

151 — “Conheço-te agora, ó arquiteto. não mais construirás a casa, Quebradas estão tôdas as vigas, desabou a cumeeira. Livre está o meu espírito pois cheguei à extinção dos desejos”.

155 — Os que não observaram a disciplina conveniente, e não colheram durante a mocidade as riquezas do verdadeiro dever, perecem como velhas garças tinto a lago sem peixes.

156 — Os que não observaram a disciplina conveniente e não recolheram durante a mocidade as riquezas do saber, são como arcos rotos, Só têm que se lamentar das fôrças perdidas.

O EGO

157 — Se alguém ama a si mesmo, que se vigie bem. Velará o sábio um têrço da noite.

158 — Começa por te estabelecer a ti mesmo no reto caminho, depois poderás aconselhar os outros. Que o homem sábio nenhuma ocasião dê a censuras.

159 — Se alguém a si mesmo se formar, seguindo os conselhos dados aos outros, então, bem dirigido, pode a outrem dirigir. Difícil é, de fato, dominar-se.

160 — Na verdade, cada qual é custódio de si mesmo; que outro guardião se poderá encontrar? Disciplinando-se a si mesmo, tem o homem guarda difícil de substituir.

161 — O mal feito por si mesmo, gerado em si, oriundo de si, esmaga o fraco de espírito como o diamante pulveriza as outras pedras preciosas.

162 — Aquele cujas más ações pululam como a parasita ao cobrir a árvore sâla, a si mesmo causa o mal que lhe desejaria um inimigo.

163 — Fácil é prejudicar e danificar. Dificílimo de cumprir é o que é útil e salutar.

164 — Dedicado às más noções, rejeita o néscio os preceitos dos Nobres Sêres, dos Arhat, dos homens retos, e é comparável ao fruto da árvore Katthaka que para a própria destruição amadurece.

165 — Paga o homem de mesmo, o mal feito, ele mesmo dêle se purifica; o bom e o mau purificam-se individualmente. Ninguém pode a outrem mundificar.
166 — Que ninguém negligencie de seguir o próprio Bem Supremo, buscando alcançar o bem de outro, mesmo se isto lhe pareça de grande valor. Percebendo claramente a melhor linha de conduta saiba dela não se desviar.

O MUNDO

167 — Não sigas a via do mal. Não cultives a preguiça de espírito! Não corras atrás de idéias falsas! Não sejas do que se atardam no mundo!

168 — Levanta-te! Não sejas negligente! Segue o ensino da sabedoria! O sábio é bem-aventurado neste mundo e no outro.

169 — Segue o ensino da sabedoria; afasta-te do mal; o sábio é bem-aventurado neste mundo e no outro.

170 — Se considerares o mundo como bôlha de sabão, se tiveres o mundo apenas como miragem, não te alcançará o rei da morte.

171 — Vamos, olha o mundo como o carro pintado do rajá; cousa atraente para os néscios, mas que, à verdade, nada tem que valha para atrair os inteligentes.

172 — Aquêle que, tendo sido negligente, se torna recolhido, ilumina êste mundo como a lua ao sair dentre as nuvens.

173 — Aquêle cujas boas ações cobrem o mal feito, ilumina este mundo como a lua livre das nuvens.

174 — Tenebroso é o mundo; raros são os que reconhecem o caminho e que, tal o pássaro ao escapar do laço, atingem a celeste mansão.

175 — Voam os cisnes no caminho do sol. Voam através dos ares os possuidores de poderes supra-normais. Deixam os sábios o mundo depois de vencidas as perfídias de Mâra.

176 — Expõe-se a cometer todo o mal possível o homem transgressor de um só artigo da Doutrina, que profere más palavras e despreza o mundo superior.

177 — Em verdade, o avaro não chega ao mundo divino. A alegria de dar não a conhecem os néscios. Pelo contrário muito se alegra o sábio na caridade e por isso marcha alegre para o outro mundo.

178 — Melhor vale entrar na corrente do nibbâna do que dominar a terra, atingir o céu ou reinar sobre os universos.

O BUDA

179 — Aquêle cuja vitória nunca, jamais, foi ultrapassada nem mesmo igualada, o Sublime Desperto, que está na esfera a que nada pode limitar, por que pista despistá-lo, a de que não deixa pegadas?

180 — Aquêle em quem não mais há cobiça ou desejo, de que modo pode ser dirigido? Por que pista despistá-lo, a êle que não deixa pegadas?

181 — Invejam os próprios deuses aos sábios, aos despertos, aos recolhidos, que se deleitam no retiro do mundo.

182 — Difícil é conseguir nascer no estado de homem. Difícil é viver esta vida mortal, Difícil é conseguir ocasião de ouvir a verdadeira lei (dhamma). Difícil é o nascimento dos despertos, dos budas.

183 — Abster-se do mal; fazer o bem e purificar o mental; tal é o preceito dos budas.

184 — A melhor das práticas ascéticas é a paciência constante. E o estado nibânico o mais perfeito, dizem os budas. Não é em absoluto um pabbajita (discípulo) quem faz mal aos outros sêres, nem se torna verdadeiro asceta (sámana) quem a outrem injuria.

185 — Não vituperar, a ninguém prejudicar, praticar a disciplina segundo a lei, ser moderado no comer, viver retirado e dar-se a altas meditações, tal é o ensino dos. budas.

186 — Nem mesmo uma chuva de riquezas poderia estancar a sêde dos desejos, pois são êles insaciáveis e geram a dor; eis o que vê o sábio.

187 — Para o sábio até os prazeres celestes são insípidos; o discípulo do Buda, do Desperto Supremo. só se compraz na abolição de todo desejo.

188 — Compelidos pelo mêdo, muitos homens buscam refúgio nas montanhas, florestas, ou perto dos bosques sagrados.

189 — Mas não é êste o refúgio ótimo nem seguro. O homem que a êle se confia, não se liberta de todas as dores.

190 — Quem se refugia no Buda, no dhamma e no sangha, na sabedoria realizada, percebe claramente as quatro verdades seguintes:

191 — A dor, a origem da dor, o aniquilamento da dor, e o óctuplo caminho que leva ao aniquilamento da dor.

192 — Em verdade, êste é o refúgio seguro, é o refúgio ótimo, Acolher-se a êle é libertar-se de tôda dor.

193 — Difícil de encontrar é o homem superior, o buda. Tal ser não nasce em qualquer parte. E onde êste sábio nasce, benditos são os que o rodeiam.

194 — Bendita é a aparição dos budas, bendita a difusão da lei verdadeira, Bendita a unidade do sangha. bendita a devoção dos discípulos.

195-6 — Não há medida para o mérito do homem que reverencia os dignos de preito, a saber um buda e seus discípulos, êsses libertos, êsses detentores da certeza, tendo superado todos os obstáculos, tendo atravessado o rio da aflição e do desespêro.

A FELICIDADE

197 — Entre os que odeiam, felizes somos se vivemos sem ira. No meio dos homens que odeiam, estejamos livres de rancor.

198 — Entre os que sofrem, felizes somos os que sem sofrer vivemos, Em meio aos que sofrem, sejamos livres de sofrimento.

199 — Entre os que desejam, felizes somos os que sem desejos vivemos. Em meio dos que desejam, sejamos livres de desejos.

200 — Felizes em verdade somos, nós que nada possuímos. Seremos nutridos de alegria como os deuses radiantes.

201 — Gera a conquista hostilidades. Jaz na desgraça o vencido. Descansa na alegria o homem pacífico, que desdenha tanto da vitória como da derrota.

202 — Não há fogo tão ardente como a paixão nem maior pecado que o ódio. Não há miséria comparável à que causam os elementos da vida; não há beatitude superior à paz do nibbâna.

203 — É a fome doença gravíssima. Causam as piores desgraças os elementos da vida que constituem a existência. Quem isto sabe de acôrdo com os fatos e a verdade, alcançou o nibbâna, a suprema beatitude.

204 — É a saúde o maior bem, o contentamento é a melhor riqueza. O amigo fiel é o melhor parente. Mas a suma beatitude é o nibbâna.

205 — Ao gostar as doçuras da solidão e da paz. liberta-se o homem do sofrimento e do mal; bebe a doçura da verdade.

206 — É bom contemplar os âriyas (os nobres); viver junto dêles é uma dita. Feliz o que não deita nunca o olhar sôbre estultos.

207 — Tratar com néscios é comprar aborrecimentos. Viver com tolos, é em tôdas as circunstâncias tão vergonhoso como conviver com inimigos. Coabitar na companhia do sábio é gozar da mesma felicidade que viver no meio dos seus.

208 — Recorre, portanto, à sociedade do sábio, do douto, do erudito, do homem piedoso que está sob o jugo da verdade. Como a lua segue o caminho das estrêlas, segue o exemplo do bom e do sábio.

O PRAZER

209 — Dedicar-se ao que é improficuo e não se dedicar ao aproveitável, sacrificar os verdadeiros valores à caça de prazeres, é preparar o remorso de não ter agido como os que escolheram a melhor via.

210 — Pouco se te dê, pois, o prazer ou o desprazer; pois doloroso é deixar o agradável, e também é doloroso topar o desagradável.

211 — Deve evitar-se amar o que quer que seja, pois é mal a perda do objeto amado. Não há grilhões para os que nem amam nem tampouco odeiam.

212 — Da afeição nasce o pesar, da afeição se origina o temor. Livres de afeição não sentiremos nem pesares nem temores.

213 — Do amor se origina a tristeza, do prazer vem o temor. Quem está de todo livre do prazer não tem tristezas nem temores.

214 — Do deleite vem a tristeza, do deleite nasce o temor. Os livres de cobiça não conhecem tristezas nem temores.

215 — Do desejo dos sentidos vem o tédio, do desejo dos sentidos nasce o temor. Os libertos de concupiscências, não conhecem tédio nem temor.

216 — Da cobiça vem o tédio, da. cobiça nasce o temor, quem pelos apetites não é dominado não tem tédio nem temor.

217 — O mundo estima quem possui sabedoria e intuição, o homem pio e verdadeiro que faz o que lhe cabe fazer.

218 — Chama-se vogador da corrente o que aspira ao inefável nibbâna, aquêle cujo mental é firme e cujos pensamentos escaparam aos laços da cobiça.

219 — Ao homem que volta de longa viagem saúdam amigos e parentes.

220 — Assim é o homem de bem acolhido ao passar dêste mundo ao outro; com alegria suas boas ações lhe saúdam a volta.

Sexta-feira, 31 de Julho de 2009
DHAMMAPADA CONCLUSÃO Trad. Mario Lobo Leal

DHAMMAPADA
[O caminho do Dharma] Trad. Mario Lobo Leal – Rio, Org. Simões, 1955

A IRA

221 — Repele a ira, depõe o orgulho, quebra todos os grilhões. Quem se desembaraça dos elementos constitutivos da vida, quem a cousa alguma em absoluto se apega, fica isento do sofrimento.

222 — Qualquer que retiver a cólera impetuosa, como se pára o carro em disparada, merece o nome de condutor. Os outros só seguram as rédeas.

223 — À cólera opõe a serenidade, ao mal o bem. Conquista o avarento pela generosidade e o mentiroso pela sinceridade.

224 — Dize a verdade, não te entregues à cólera; dá do pouco que possuis a quem te pede; por estas três condições aproximam-se dos deuses os homens.

225 — Os que a nenhuma criatura viva ferem, os sábios sempre donos de seus sentidos, estão em caminho da condição imperecível em que não mais padecerão.

226 — Os que passam no estudo e na vigilância os dias e as noites, com o mental voltado sempre para o nibbâna, um dia se livrarão do laço da paixão e da ilusão.

227 — Não é só de hoje, mas há muito tempo que são criticados os que se assentam em silêncio, os que falam em excesso e os que o fazem com moderação. Não há no mundo ninguém que escape à crítica.

228 — Não há, nunca houve, e jamais haverá alguém no mundo exposto só aos vitupérios ou aos louvores.

229 — 30 — Se um homem fôr louvado pelos sábios, pelos que dia a dia o observam, pelos doutos, pelos imaculados, pelos que usam a sabedoria e a virtude como alfaia de ouro, quem então teria direito de censurá-lo? Seria apreciado até pelos deuses, o próprio Brahmâ o apreciaria.

231 — Guardai-vos da insubmissão do corpo. Refreai os atos. Deixando as maneiras errôneas de agir, segui a via das ações justas.

232 — Sêde vigilantes contra a insubordinação da língua. Refreai as palavras. Abandonando as maneiras errôneas de falar, segui a via das palavras justas.

233 — Sêde vigilantes contra a insubordinação do espírito. Refreai os pensamentos. Deixando de parte as maneiras más de pensar, segui a via dos pensamentos justos.

234 — Os sábios cujas ações são vigiadas, cujas palavras são refreadas, cujos pensamentos são domados, à verdade, tais têm perfeito domínio de si mesmos.

A IMPUREZA

235 — Eis-te como fôlha sêca; agarram-te os arautos de Yama. Estás às portas da morte e não tens o viático das boas obras.

236 — Constrói então ràpidamente tua ilha de refúgio. Sê prudente. Apressa-te. Lavado e purificado, entrarás na celeste mansão dos Sêres Nobres.

237 — Terminaram-te os dias, estás em presença da morte. Não tens nenhuma pausa no caminho e não tens as necessárias provisões.

238 — Constrói ràpidamente tua ilha de refúgio. Sê prudente. Apressa-te. Lavado e purificado, não mais estarás sujeito ao nascimento e à decrepitude.

239 — Como o ourives refina a prata bruta, assim, a pouco e pouco e de instante em instante, o homem sábio se despoja de suas máculas.

240 — Ao aparecer a ferrugem no ferro, o próprio ferro já está por ela carcomido. Da mesma sorte, do homem as más ações o levam ao castigo.

241 — Compromete a eficácia dos mantras a falta de repetição. Compromete a solidez das habitações a falta de conservação. O vício compromete a beleza do corpo. A desatenção trai a quem reflete.

242 — Para a mulher a má conduta é mancha, Para quem dá, a mesquinharia é mácula. A malfazeja disposição é mancha neste e no outro mundo.

243 — Maior ainda que tôdas as máculas é a ignorância. Lavai-vos desta única mancha e ficareis sem mácula, ó bhikkhus.

244 — Fácil é a vida que leva o impudico, o imprudente, o malicioso, o fanfarrão presunçoso, o impuro.

245 — A vida é sempre árdua para o modesto, para o que busca o que é puro, que é desinteressado, tranqüilo, íntegro e sensato.

246 — 247 — Já neste mundo está destruído quem destrói a vida; diz falsidades; toma o que não lhe foi dado; cobiça a mulher alheia, e se entrega às bebidas espirituosas.

248 — Sabe pois que é funesto não saber dominar-se. Age de tal modo que a concupiscência e a injustiça não te exponham a interminável sofrimento.

249 — Cada qual dá segundo a fé ou o prazer. Se te entristeces por causa dos alimentos e das bebidas ofertados a outrem, nem de dia nem de noite chegarás à concentração.

250 — Quem até as raízes extirpou tal sentimento chegará dia e noite à concentração.

251 — Não há fogo comparável à paixão, nem cativeiro tal como o ódio. Não há rêde embaraçada como a ilusão. Não há rio mais caudaloso que o desejo.

252 — Fácil é ver as faltas alheias, mas nosso vício é difícil de discernir. Joeiramos as faltas alheias como a palha do trigo; mas ocultamos as nossas como o astuto jogador dissimula o passe que o perderia.

253 — Ao ver sempre os defeitos alheios o critico entrega-se ao poder crescente do desejo, ao amor desta vida, à ilusão; ele está longe da destruição das paixões.

254 — Através do ar não há caminho; não há sâmana fora da boa via. Deleita-se a raça humana na perversidade. Os tathâgatas sobrepujaram êste obstáculo.

255 — Através do ar não há caminho; não há sâmana fora da boa via. Este mundo criado não é eterno, mas os budas (iluminados) permanecem inabaláveis.

O JUSTO

256 — Não é justo o homem que julga à pressa. O homem sábio é o que distingue o falso do verdadeiro.

257 — Quem a outrem julga com todo conhecimento de causa segundo a lei e a eqüidade; tal sábio, esclarecido pela Doutrina, merece o nome de justo.

258 — O sábio não é o que mais fala. É ao homem plácido, isento de cólera e temor, serviçal, valente, que se chama sábio.

259 — Não é falando muito que alguém é sustentáculo da Doutrina. Quem pouco sabe da Doutrina, mas nela pauta os atos, é o seu verdadeiro pilar. Êste não a despreza.

260 — Por ser encanecido, um homem não é thera (ancião). “Ser velho só pelos anos que conta — diz o provérbio — é ter envelhecido em vão.

261 — Quem possui verdade, virtude, compaixão e dominio de si mesmo, que é sem mácula e sábio, merece de fato ser chamado de thera.

262 — Ao homem que é invejoso, avaro e fraudulento nem a palavra fácil, nem tampouco a bela aparência o honram.

263 — Aquêle em que tais disposições de espírito foram destruídas, desenraizadas, diz-se que tal homem sábio libertado das paixões é bem treinado.

264 — Quanto ao homem intemperante e mentiroso, não o torna asceta a cabeça rapada. Vitima da concupiscência e da cobiça, como pode ser um sámana?

265 — O que de todo o mal, pequeno e grande, está pacificado, merece ser chamado sâmana.

266 — Somente porque mendiga um homem não é bhikkhu. Não basta pronunciar os votos para se tornar bhikkhu. É preciso viver a Doutrina.

267 — Mas quem está acima do bem e do mal, que é casto, leva uma vida de saber e de reflexão, merece ser chamado bhikkhu.

268 — O homem que observa o silêncio nem por isso é sábio se é ignorante e insensato.

269 — Quem sabe pesar os prós e os contras e fazer a escolha, merece ser chamado sábio.

270 — Quem abandona o mal, escolhendo sabiamente é sábio. Quem tem conhecimento justo dos dois mundos (êste mundo e o além) por causa disso é chamado sábio.

271 — Não é áriya o homem que maltrata sêres vivos. Merece ser chamado áriya quem se apiada de tôdas as criaturas.

272 — Não foi pelas mortificações, nem por vasto saber, nem pela prática da meditação, nem pela vida solitária que pude atingir a felicidade desconhecida aos que vivem no mundo. Sêde vigilantes, ó bhikkhus, até atingirdes a extinção do desejo.

A SENDA

273 — A Óctupla Senda é a melhor senda; a Quádrupla Verdade é a melhor verdade. A impassibilidade é a melhor das condições; aquêle que vê e compreende é o melhor dos homens.

274 — Em verdade, esta é a Senda: não há outra que conduza à purificação do intelecto. Segui esta senda e Mâra será confundido.

275 — Seguindo tal senda, poreis têrmo ao sofrimento. Esta senda, eu a descobri quando aprendi a me preservar dos acicates da dor.

276 — De nós mesmos deve vir o esfôrço. Os tathâgatas só podem indicar a senda. Chegam os espíritos meditativos a se livrar dos vinculos de Mâra.

277 — “São caducos todos os elementos constitutivos desta vida”. Fica-se livre da dor, uma vez que a sabedoria fêz compreender isto. Esta é a senda da purificação.

278 — “Cheios de dor estão os elementos desta vida”. Fica-se à prova da dor, uma vez que a sabedoria fêz compreender isto. Esta é a senda da purificação.

279 — “Todas as formas criadas são irreais”. Fica—se à prova da dor, uma vez que a sabedoria fêz compreender isto. Esta é a senda da purificação.

280 — Chegado o momento de ser ativo e agir, qualquer que, jovem e forte, não cumpre o dever e ainda se entrega à preguiça; quem quer se mostre fraco, apático, débil na vontade e nas ações, êste não encontrará o caminho da sabedoria.

281 — Moderação de linguagem, vigilância do mental, abstenção de maus atos, uma vez abertas estas vias diante de ti, atingirás a senda ensinada pelos sábios.

282 — Pela contemplação intensa se adquire a sabedoria; pela falta de contemplação intensa se perde a sabedoria, Conhecidos êsses dous caminhos de aquisição e de perda, escolhe aquêle em que o saber progrida e cresça.

283 — Derrubai êste bosque e não uma árvore só. Dos bosques dos desejos sai o perigo. Depois de abatido êste mato grosso de árvores e arbustos, então ó bhikkhus, estais ao cabo de vossos sofrimentos.

284 — Enquanto não fôr cortada a última raiz do desejo do homem pelas mulheres, ter-se-á o espírito cativo e tão sujeito como o novilho que ainda mama.

285 — Extirpa o amor de ti mesmo como o lódão é arrancado no outono. Anda a senda da paz, pois o nibbâna é ensinado pelo Sugata.

286 — “Durante a estação das chuvas viverei aqui, na estação fria lá; alhures quando da canícula” assim faz o néscio projetos no coração sem se dar conta do que pode contrariá—los.

287— E êste homem que se deleita na abundância de filhos e rebanhos, cujo espírito só vive para o ganho e para a posse; agarra-o a morte e arrasta-o como o rio transbordado leva a aldeia adormecida.

288 — Nenhum refúgio se encontra junto dos filhos, do pai ou da família. Não podem os teus oferecer-te nenhuma salvação, ao seres assaltado pela marte.

289 — Sabendo disso perfeitamente, o sábio, o homem seguro de si, logo terá expedita a senda que conduz ao nibbâna.

MISCELÂNEA

290 — Sendo bastante deixar o prazer menor para se obter o maior, esquecer-se-á o homem sábio do primeiro para levar em conta o segundo.

291 — Buscar o próprio bem-estar em detrimento alheio, é envolver-se de ira, é tornar-se escravo de rancores.

292 — Negligenciar o que deve ser feito e fazer o que se deve negligenciar,
é dar-se ao aumento do desejo e da ilusão.

293 — Estar de contínuo alerta contra as surpresas dos sentidos, não procurar o que é mau, buscar com afinco o bem, é mostrar-se sábio refletido, ter dito adeus ao desejo e à ilusão.

294 — Morto o pai, (o orgulho), a mãe (a volúpia) e dois reis militares (do falso saber): abandonado o reino do prazer e tôda a dependência, caminha o brâmane são e salvo.

295 — Morto o pai, a mãe, e dois reis sacerdotes; abandonados os cinco veículos da existência (corpo, sensação, percepção, volição, consciência), caminha o brâmane são e salvo.

296 — Os discípulos de Gótama estão sempre bem despertos. Noite e dia o espírito dêles está cheio do Buda, do dhamma, do sangha e da natureza transitória de tôda a forma.

297 — Alertas, bem despertos, estão sempre os discípulos de Gótama. Dia e noite o seu mental está fixo na Doutrina (dhamma).

298 — Alertas, bem despertos, estão sempre os discípulos de Gotama. Noite e dia o mental dêles está fixo na sangha (comunidade).

299 — Alertas, bem despertos, estão sempre os discípulos de Gotama. Noite e dia êles se lembram da natureza efêmera das formas.

300 — Alertas, bem despertos, estão sempre os discípulos de Gotama, Noite e dia seu mental se deleita na compaixão.

301 — Alertas, bem despertos, estão sempre os discípulos de Gotama. Noite e dia seu mental se deleita na meditação.

302 — É duro abandonar o mundo. É penoso viver no mundo. Rude é a vida monástica, e difícil de se tolerar é a vida de família. É penoso pôr tudo em comum, mas o vadio é atormentado pela desgraça.

303 — O peregrino mendicante está sujeito à dor. Ganha glória e tesouros o homem cheio de fé e de coragem. Ële é reverenciado em toda a parte por onde ande.

304 — Como a cadeia nevosa do Himalaia, de longe, são reconhecidos os homens leais. Não mais visíveis são os homens todos que flechas disparadas de noite.

305 Que se deleite com a vida solitária das florestas o homem que come só, dorme só, caminha só, incansável no domínio de si mesmo.

O NIRAYA

306 — Aquêle que mente vai para o niraya. e o que, tendo agido, nega o ato. No futuro ambos participarào da mesma sorte, As obras dos homens acolhem-nos no além.

307 — Usando embora o hábito amarelo, se são dissolutos e instigadores do mal suas ações os levam ao niraya.

308 — Valeria mais engolir uma bola de ferro em brasa do que viver de esmolas quando se leva vida dissoluta.

309 — Quatro castigos aguardam o homem sem escrúpulos, que cobiça a mulher do próximo: infortúnio, sono agitado, reputação vergonhosa e o niraya.

310 — Há portanto a má reputação, o demérito, prazer breve e inquieto dos dois cúmplices e a punição severa do juiz. Assim, que nenhum homem cobice a mulher alheia.

311 — A erva kuxá corta a mão que inábil a pega. Assim também leva ao niraya o ascetismo mal praticado.

312 — O dever cumprido com indiferença, a regra seguida invita, tudo isto trará apenas parca recompensa.

313 — O que deverás cumprir, fá-lo com todo o ardor. Um falso peregrino na senda só faz espalhar o mal.

314 — Melhor é evitar a má ação: quem a comete arrepender-se-á. Melhor é a boa ação; executada, nenhum arrependimento acarretará.

315 — Saiba guardar-te a ti mesmo, como a fortaleza bem guardada por dentro e por fora. Não abandones um só momento a defensiva. Os que de tal coisa se esquecem, por um minuto que seja, sofrem as penas do niraya.

316 — Alguns há que não se envergonham do escândalo, e escandalizam-se quando nada há de vergonhoso. Formar falsos juízos é entrar pelo mau caminho.

317 — Ter mêdo do que não é temível, e não temer o que é formidável; formular tais juízos é enveredar por mau caminho.

318 — Ver o mal onde não o há e não vê-lo onde existe; formular tais juízos é seguir a má estrada.

319 — Reconhecer o mal como mal, e o bem como bem, aderir à verdadeira Doutrina, é tomar o bom caminho.

O ELEFANTE

320 — Como o elefante de combate suporta a flecha disparada do arco, assim suportarei pacientemente as palavras ásperas dos malévolos que compõem o mundo.

321 — É conduzido à batalha o elefante domado. Monta-o o rajá. O melhor homem é o homem manso que suporta em silêncio as injúrias.

322 — Excelentes são os mulos amestrados e os cavalos puro-sangue de Sindh, e também os grandes elefantes de combate. Melhor ainda é o homem que a si mesmo domou.

323 — Não são tais alimárias que te transportarão à região inexplorada mas, dominando-nos a nós mesmos, poderemos lá chegar.

324 — Difícil de governar na época do cio é o grande elefante chamado Dhanapâlako. Acorrentado, recusa o alimento, Êle se lembra, êste grande elefante, da vida agradável da floresta.

325 — Quem fôr preguiçoso, glutão, com a cabeça pesada pelo sono, como o porco que se alimenta de detritos — este néscio conhecerá ainda inúmeros renascimentos.

326 — Por muito tempo, êste mental quis errar e vagabundear, seguindo a inclinação de seu bel-prazer, mas hoje eu o dominarei como o cornaca retém o elefante enfurecido.

327 — Sêde vigilantes, guardai com rigor o mental. Arrancai-vos da cloaca do mal como o elefante sai do pântano.

328 — Se achardes para vos acompanhar companheiro prudente, sóbrio, sábio, equânime em todos os perigos, não deixeis de vos pôr a caminho com ele.

329 — Se não encontrardes nenhum companheiro prudente, sóbrio e sábio, então, como um rei deixa o seu reino conquistado, ou como o elefante na floresta, ide só pelo caminho.

330 — É preferível viver só. O néscio não serve de companheiro. Ide então só na vida, sem fazer mal, com poucas necessidades, como o elefante errante através da selva.

331 — É bom ter às vêzes um amigo certo, E bom ficar satisfeito com tudo o que acontece. É bom no fim da vida ter agido bem. É bom estar livre de todos os cuidados.

332 — É bom ser mãe. É bom ser pai. É bom ser sámana. É bom possuir a santidade.

333 — É bom praticar a magnanimidade em todo o decurso da vida. É bom conservar a fé sólida. É bom adquirir sabedoria. É bom não praticar nenhum mal.

A CONCUPISCÊNCIA

334 — Em homem sem recolhimento, a concupiscência cresce como a planta trepadeira do Mâluva. Êle pula de existência em existência como o símio à cata de frutos na selva.

335 — Quem é dominado pela feroz e venenosa cobiça, vê seus males crescer e aumentar como a relva do Bírana depois da chuva.

336 — Mas quem domina esta cobiça tão difícil de vencer, vê seus males cair como a gôta dágua desliza do lódão.

337— A todos aquêles aqui reunidos eu dou êste conselho salutar: “Extirpai a raiz da cobiça, como se arranca a relva do Birana. Não deixeis Mâra quebrar-vos sem pausa, como o rio dobra a cana.

338 — Tal a árvore podada deita ainda brotos, ficando intactas e salvas as raízes; assim o sofrimento volta ainda e sempre, enquanto em nós não extirparmos o desejo.

339 — Incapaz de resistir poderosamente às trinta e seis torrentes de paixões, o homem mal guiado, ávido de prazer, é arrebatado pelas ondas.

340 — De tôdas as partes correm estas torrentes, e a planta trepadeira (da cobiça) se agarra e brota. Ao vê-la medrar, sêde bastante advertidos para cortá-la pela raiz.

341 — Deixando o espírito se demorar com delícia no meio das volúpias, os homens tornam-se vítimas do nascimento e da morte.

342 — Tontos de cobiça, correm os homens daqui para ali como lebres perseguidas pelo caçador. Agarrados e laçados, por muito tempo ainda terão que suportar o sofrimento.

343 — Tontos de cobiça, correm os homens daqui para lá como lebres acossadas. Rejeita portanto o desejo, ó bhikkhu, tu que aspiras a te libertar das paixões.

344 — A aquêle que, liberto da selva do de leite, nela recaí, olha-o como o escravo fôrro voltando ao cativeiro.

345 — Aos olhos do sábio, não são feitas de ferro, madeira ou cânhamo as pesadas cadeias: são ainda, mais a ardente cobiça de jóias e enfeites, como o apêgo aos filhos e às espôsas.

346 — De certo, é forte grilhão, declara o sábio, e êle paralisa os homens e penoso é dêle se livrar. Entretanto, cortam-no alguns, e escolhem a vida sem lar; abandonam o prazer e o desejo sem olhar para trás.

347 — Há os que se prendem na própria rêde de prazer, como a aranha na teia. O sábio passa de largo, sem se voltar, e deixa atrás todos os cuidados.

348 — Livra-te do passado, livra-te do presente para os superar. Liberto assim o mental, não mais voltarás a entrar no nascimento e na decrepitude.

349 — O homem agitado pela dúvida, subjugado pelas paixões, só atento ao prazer, vê nêle crescer a concupiscência, forja para si pesadas cadeias.

350 — O homem que se compraz na pacificação do mental, que não receia o desprazer, à verdade, removerá, cortará as cadeias de Mára.

351— Aproxima-se da grande Consumação sem temor, livre da cobiça, sem mancha, destruídos os espinhos da existência, e ser-lhe-à esta a última encarnação.

352 — Livre do desejo, desligado de tudo, hábil para compreender o Ensino, versado no sentido etimológico das palavras, tal se mostra êle na última encarnação; e chamam-lhe o Grande Homem, o Grande Sábio.

353 — ‘Eu sou aquêle que tudo compreendeu e aprendeu: que nada polui ou embaraça, livre pela destruição das cobiças, tendo, só, penetrado tudo, a quem pois poderia chamar de meu mestre?”

354 — Sôbre todos os dons, reina o dom da Doutrina. Acima de todos os sabôres, reina o sabor da Doutrina. Acima de tôdas as delicias reinam as delícias da Doutrina. Acima de todo sofrimento reina o término da cobiça.

355 — Aniquilam as riquezas o insensato, se ele não busca o que está além. Pela paixão por elas, destrói—se o néscio como o destruiriam os inimigos.

356 — São as ervas daninhas a perda dos campos; a perda da nossa geração é a avidez. Por conseqüência, produz muitos frutos o dom da doutritrina do desapêgo.

357 — São as ervas daninhas a perda dos campos, a perda da nossa geração é a ira. Por conseqüência, produz muitos frutos o dom que do ódio vos liberta.

358 — São as ervas daninhas a perda dos campos; a perda da nossa geração é a ira. Por conseqüência, produz muitos frutos o dom que da vaidade vos liberta.

359 — São as ervas daninhas a perda dos campos; a perda da nossa geração é o desejo egoísta. Por conseqüência, produz muitos frutos o dom que do egoísmo vos liberta.

O BHIKKHU

360 — É bom saber refrear a vista. É bom regular o ouvido. É bom vigiar o olfato. É bom refrear o paladar.

361 — É bom vigiar a ação. É bom reprimir a palavra. É bom refrear o mental. Em todos os casos é boa a vigilância. Livre está de tôda a dor o bhikkhu que se controla de todos os modos.

362 — Merece chamar-se bhikkhu o homem que refreia os gestos, o andar, a língua, sente-se satisfeito, tranqüilo, contente consigo.

363 — O bhikkhti, senhor de sua língua, sábio e comedido nos propósitos, não ancho de orgulho, que interpreta a Doutrina, esclarecendo-a, doces como mel são suas palavras.

364 — Observante da Doutrina, alegrando-se na Doutrina, meditando na Doutrina, expondo a Doutrina, assim agindo o bhikkhu estará sempre nela firmemente fundado.

365 — Não deve o bhikkhu desdenhar dos próprios progressos (em sabedoria e virtude), nem olhar com inveja os de outrem. Não pode conseguir a concentração o bhikkhu que é invejoso.

366 — Mesmo que o progresso feito pelo bhikkhu não seja grande, que êle não desdenhe disso. Sendo sua vida pura e o labor constante, até dos deuses será louvado.

367 — Aquêle que, de tudo o que compõe o corpo e a mente, não acha nada de que possa dizer ‘isto é meu , e que não se lamenta sôbre o drama efêmero da vida, em verdade, êle se chama bhikkhu.

368 — O bhikkhu que age com bondade e se deleita no Ensino do Iluminado atinge tal bhikkhu a paz do nibbâna, têrmo tranqüilo e bem-aventurado da existência compósita.

369 — Deita fora o lastro, ó bhikkhu: uma vez aliviado, teu barco te levará sem esfôrço. Desembaraçado do desejo e da ira, entrarás no nibbâna.

370 — Suprime êstes cinco objetos: crença num eu distinto, indecisão, crença na eficácia dos ritos e cerimônias, luxúria, má vontade. Abandona êstes outros cinco: desejo da vida no mundo sem forma, desejo da vida no mundo da forma, orgulho, agitação do mental e ignorância. Cultiva êstes outros cinco: confiança, energia, atenção concentrada, meditação e sabedoria. O bhikkhu, assim quitituplamente libertado, é chamado oghatinna, isto é, o vogador da corrente.

371 — Sêde vigilantes, ó bhikkhus. Nada negligencieis. Não deixeis a mente evolver em tôrno dos prazeres sensuais, isto equivaleria a, por negligência, engolirdes uma bola de ferro em brasa, gritando: “Que suplício!”

372 — Sem sabedoria não há meditação; sem meditação não há sabedoria. Está verdadeiramente perto do nibbâna aquêle que medita e é sábio.

373 — Aquéle que desmobilou a casa (da vida), o bhikkhu de mental tranqüilo, goza de alegria sôbre-humana na clara visão da Doutrina.

374 — Logo que com atenção concentrada êle vê como os elementos da existência nascem e desaparecem, goza da felicidade e da alegria pertencentes aos conhecedores do nibbâna.

375 — Eis as primeiras observâncias necessárias ao sábio bhikkhu: vigiar os sentidos, contentar-se com pouco, observar a disciplina requerida pela Doutrina, escolher por amigos sêres nobres, sinceros e puros.

376 — Seja o bhikkhu hospitaleiro, afável e cortês; assim, na plenitude da alegria, terá pôsto têrmo ao sofrimento.

377 — Como a vássikâ (jasmim) deixa cair as pétalas murchas, assim despoja-te da paixão e da ira, ó bhikkhu.

378 — Comedido em atos, comedido em palavras, calmo, plácido, livre de todo o apetite mundanal, tal é o bhikkhu que se chama sossegado.

379 — Pelo Ego é preciso ativar o ego; é preciso refrear o ego pelo Ego; protegido pelo Ego, vigilante, prosseguirá o bhikkhu sua rota até a felicidade.

380 — Porque o Ego é o seu próprio senhor, o Ego é o seu próprio refúgio. Saibas, portanto, reprimir-te como o mercador domina o impetuoso corcel.

381 — Repleto de alegria, arrebatado pela mensagem do Buda, atinge o bhikkhu o plácido nibbâna, o apaziguamento feliz e tranqüilo da existência composta.

382 — Até um jovem bhikkhu consagrado à Doutrina do Sublime Desperto. ilumina êste mundo como a lua ao emergir das nuvens.

O BRÂMANE

383 — Detém a corrente, faze esfôrço, desembaraça-te das concupiscências, ó brâmane! Chegado à destruição das existências compostas. conhecerás o nibbâna, o incomposto.

384 — Quando o brâmane abarcou os dois estados de pacificação e de visão interna, então conhece a Realidade e todos os grilhões caem.

385 — Aquêle para quem não há subjetivo ou objetivo, o ser sem mêdo e sem entraves, chamo-lhe eu brâmane.

386 — Aquêle que à meditação se devota, que está isento do desejo, do amor da vida, da ilusão; que é sem mácula, fêz o que devia fazer, e atingiu a meta final, chamo-lhe eu brâmane.

387 — De dia arde o sol. De noite brilha a lua. Cintila em sua armadura o guerreiro. Luz o brâmane na meditação. Noite de dia sem cessar, resplandece o Buda.

388 — É brâmane o homem que corajosamente bane o mal. É discípulo aquele cuja conduta é disciplinada; e asceta é o que de suas impurezas se purgou.

389 — Que ao brâmane nenhum mal se lhe faça, e, atacado, o brâmane não revide. Opróbrio sôbre quem bate no brâmane. Desonra sôbre o brâmane que retorna a injúria.

390 — Nada de melhor há, para o brâmane, que o domínio do mental e das inclinações (tendências). Suprimida a má intenção, a infelicidade é aplacada.

391 — Aquêle que desconhece o mal em atos, palavras e pensamentos, ao homem que tem êste tríplice domínio, chamo-lhe eu brâmane.

392 — A quem quer vos ensine a Doutrina do Buda Supremo, rendei-lhe homenagem e veneração como o brâmane diante da chama sagrada.

393 — Não são os cabelos trançados, a casta, o nascimento que fazem o brâmane. Em quem a verdade, a retidão e a piedade residem, este é verdadeiro brâmane.

394 — Que importam os cabelos trançados, ó homem néscio! Que importam as peles de cabras de que te cobres? Ocultas uma selva no coração, só tens da amenidade a aparência.

395 — Ao homem esfarrapado, emaciado, cujos músculos são salientes, e que, solitário, medita na floresta, a êste chamo-lhe eu brâmane.

396 — Não chamo porém brâmane ao, nato embora de tronco bramânico, é rico e arrogante. Ao que nada possui e a nada se apega, chamo-lhe eu brâmane.

394 — O que todos os ligamentos rompeu, e diante de nada mais treme, solto de todos os liames, chamo-lhe eu brâmane.

398 — O que a pouco e pouco cortou a correia (da inimizade), a venda (do apêgo) e a corda (do cepticismo); que afastou os obstáculos (da ignorância) que é iluminado, chamo-lhe eu brâmane.

399 — Aquêle que, sem ressentimentos, sofre as injúrias, os golpes e as cadeias, e da paciência fêz seu vigoroso escudo, chamo-lhe eu brâmane.

400 — Ao que da cólera se livrou, seus deveres observa, virtuoso, sem apetites, e está na última encarnação terrena, lhe chamo eu brârna ne.

401 — O que aos prazeres sensuais não mais se apega do que às pétalas do lódão a gota dágua, ou à ponta da agulha o grão de mostarda, a êste lhe chamo eu brâmane.

402 — Ao que nesta vida realizou a cessação do sofrimento e não mais tem fardo ou jugo, lhe chamo eu brâmane.

403 — Ao sábio de profunda sabedoria, conhecedor do bom e do mau caminho, tendo atingido o Objetivo Supremo, chamo-lhe eu brâmane.

404 — Ao que não busca a companhia dos leigos, nem do sámana e que é sem lar e tem poucas necessidades, lhe chamo eu brâmane.

405 — Ao que a nenhuma criatura fraca ou poderosa faz mal; e não comete ou faz cometer crimes lhe chamo eu brâmane.

406 — Tolerante com os intolerantes, entre os violentos manso, entre os interesseiros desinteressado, tal é a quem eu chamo brâmane.

407 — Ao que da luxúria e da ira, do orgulho e da inveja se desprendeu como da ponta da agulha o grão de mostarda, lhe chamo eu brâmane.

408 — Aquêle cuja bôca só boas palavras instrutivas e verdadeiras profere, e a ninguém no mundo causa dano, lhe chamo eu brâmane.

409 — Aquêle que nada toma que não se lhe dê, seja grande ou pequeno, curto ou longo, bom ou mau, lhe chamo eu brâmane.

410 — Aquêle que não languesce na espera dêste mundo ou de outro e não mais apêgo ou jugo tem, lhe chamo eu brâmane.

411 — Ao que não mais tem desejos, em quem a perfeição do conhecimento afastou tôdas as incertezas e que à condição do nibbâna imortal atingiu, a êste lhe chamo eu brâmane.

412 — Ao liberto dos dois entraves, o do bem e do mal, e que está livre de tormentos, de mácula e de impureza, lhe chamo eu brâmane.

413 — Aquêle que, tal a lua, é puro, claro e sereno, e acabou com as alegrias da existência, lhe chamo eu brâmane.

414 — Ao que ultrapassou a ilusão, esta senda lamacenta, esta rota espinhosa do ciclo das vidas e das mortes, aquêle que atravessou e passou para a outra margem que é meditativo, sem desejo, sem incerteza, desapegado, plácido, lhe chamo eu brâmane.

415 — Ao que abandonou tôda luxúria, e se votou à vida errante, cuja sêde de existência está extinta, lhe chamo eu brâmane.

416 — Aquêle que deixou tôda cobiça e se votou à vida errante, e suprimiu em si a sêde da existência, lhe chamo eu brâmane.

417 — Aquêle que, deixado o jugo terrenal, rejeitou o jugo celeste e livrou-se de todos os jugos, lhe chamo eu brâmane.

418 — Aquêle que acabou com o prazer e o desprazer, e chegou ao Sublime Equilíbrio, desatado da luxúria e das impurezas do espírito, êste herói vitorioso de todos os mundos, lhe chamo eu brâmane.

419 — Aquêle que conhece a destruição e a volta de todos os sêres, o homem livre, o beato (súgata). o desperto (buddha), lhe chamo eu brãmane.

420 — Aquêle cuja via não é conhecida dos deuses, dos semi-deuses e dos heróis mortais, que não mais tem desejos ou amor da vida, ou ilusão, a este homem venerável (ârhant), lhe chamo eu brâmane.

421 — Aquêle para quem não mais há passado, futuro ou presente, que de todo existente se esvaziou e a nada no mundo tem apêgo, a este lhe chamo eu brâmane.

422 — O Nobre por excelência, o Herói, o Sábio onipotente, o Vitorioso, o Impassível, o Sêr de todo realizado, o Desperto Supremo, a Êste lhe chamo eu brâmane.

423 — Aquêle que conhece as vidas precedentes, Àquele que vê as mansões celestes e os nirayas, Àquele que chegou ao término dos nascimentos, Àquele que obteve a clarividência, o Supremo, o Sábio de perfeito saber, o Realizado em tôdas as realizações, à verdade, lhe chamo eu brâmane.

[O caminho do Dharma] Trad. Mario Lobo Leal – Rio, Org. Simões, 1955