Jardim dos Mestres

O Zhiné

A palavra zhiné é de origem tibetana. O zhiné é uma técnica para desenvolvimento de tranquilidade. Esta técnica é descrita por Tenzin Wangyal Rinpoche em seu livro Os Yogas Tibetanos do Sonho e do Sono. Aqui trazemos nossa interpretação, adaptada segundo nossos termos, compreensões e experiências e relacionamos os obstáculos às gunas.

Nesta prática, existem três estágios de desenvolvimento: zhiné concentrado, zhiné natural e zhiné último. Ela começa pela concentração em um objeto de suporte; depois, quando a concentração com objeto estiver desenvolvida, a prática evolui para a concentração sem objeto. No primeiro estágio, é necessário algum esforço. O objeto de suporte para a concentração pode ser interno ou externo. Pode ser a respiração, a própria mente, uma ideia, uma palavra ou um mantra, uma imagem ou uma mandala. A sugestão é que seja utilizado um objeto que traga inspiração.

No início, será mais produtivo realizar várias sessões curtas, com pausas entre elas, pois, como já foi dito, é melhor começar com uma prática curta e ir aumentando o tempo gradualmente. Respire suavemente e dirija a atenção ao objeto de suporte, sem pensar sobre ele, apenas percebendo-o. Não se distraia, controle a tendência que a mente tem de movimentar-se. Não siga os pensamentos que porventura surgirem, deixe-os passar. Toda vez que a mente se distrair, traga-a de volta, suavemente. Não deixe a atenção se desviar por estímulos externos ou internos.

O segundo estágio da prática, o zhiné natural, inicia-se quando a concentração se torna estável. Aqui existe uma grande tranqüilidade, sem que seja necessário realizar algum esforço para tanto. Os pensamentos que surgem não desviam a mente de seu objeto.

Com isso, deve-se abandonar o objeto para passar ao terceiro estágio. Neste estágio, a concentração é mantida sem que a mente seja dirigida a um objeto. A tranquilidade aqui é mais profunda e suave do que no estágio anterior. Os pensamentos surgem e se dissolvem por si mesmos. Interessante observar que mesmo neste estágio surgem pensamentos, isso precisa ser compreendido para que paremos de lutar contra os pensamentos, para que não nos atormentemos com os pensamentos que surgirem, para que os deixemos passar.

É preciso praticar constantemente para que a mente alcance uma tranquilidade estável. É extremamente importante aprender a controlar a mente, pois uma mente dispersa e descontrolada gera sofrimento e é incapaz de compreender algo profundamente.

As técnicas para desenvolver tranquilidade não são apenas práticas que nos preparam para outras práticas, elas são um fim em si mesmas. A crescente estabilidade e capacidade de concentração devem ser aplicadas nas demais práticas e a todas as situações da vida.

Conforme a tranquilidade vai se tornando mais estável, podemos levar esta habilidade para nosso dia-a-dia. Quando ela for bastante estável conseguiremos voltar a ela sem esforço, os pensamentos e as emoções não mais nos causarão tormento.

Os três principais obstáculos na prática do zhiné são a agitação, o torpor e o relaxamento. A tendência a um ou a outro obstáculo depende do temperamento, ou da guna que tem predominância em cada um. Desta forma, cabe aqui, comentar um pouco sobre as características de cada uma das gunas para podermos identificar suas manifestações.

As três gunas são: sattva, rajas e tamas. A natureza de sattva está ligada à felicidade, satisfação, contentamento, vivacidade, discernimento, clareza. A presença de sattva torna a mente atenta, serena, calma, compassiva, aberta ao novo. A natureza de rajas está ligada à movimento, atividade, estímulo, inquietação. A predominância de rajas gera ira, arrogância, vaidade. A mente em que rajas predomina tem gosto por novidade e variedade e se entristece com monotonia. A natureza de tamas é oposta a de sattva e rajas, e está ligada à letargia, preguiça, apatia, confusão mental, dificuldade de compreensão, fantasias, ilusões, desânimo, depressão.

A agitação, causada pela predominância de rajas, faz com que o fluxo de pensamentos seja intenso. Uma mente com a predominância de rajas tende a divagar, o que é um grande obstáculo para meditação. A origem desta agitação está nos desejos, insatisfações, descontentamentos e frustrações, isso precisa ser compreendido através da meditação reflexiva.

O torpor é a sonolência, a letargia, que embota a mente e a faz perder a acuidade do estado de consciência. Sua origem são as reações do corpo e da mente ao poder da vontade. A causa é a predominância de tamas. A solução é praticar atividades físicas e mentais, para que a influência de rajas aumente. Depois, com a disciplina espiritual, desenvolveremos sattva.

Vale observar que os pranaymas gradualmente ajudam a diminuir a influencia de rajas e tamas em nós.

O relaxamento ocorre quando temos a impressão de ter a mente calma, mas o estado mental é fraco e passivo, sem força de concentração. Sua origem é a falta de prática e desenvolvimento.

Dominar a mente é questão de disciplina de anos. Só o tempo e a prática nos levam ao sucesso.


[1] Este termo foi apresentado pela primeira vez pela escola Sankhya, a mais antiga das tradições filosóficas hindus. Porém, a principal referência é o “Bhagavad Gita”.


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