Jardim dos Mestres

A Oração Incessante

Diz São Paulo na primeira epístola aos Tessalonicenses: “Orai incessantemente” (1 Ts 5,17). Esta frase serviu de fundamento para o surgimento da oração incessante, Oração de Jesus ou Oração do Coração.

Certamente que muitas coisas mudariam em nossas vidas se, ao menos por um instante, a cada hora pudéssemos lembrar da Divindade e orar.

A oração incessante ensinada pelos Padres do Deserto se tornou relativamente conhecida atualmente por causa do livro Relatos de um Peregrino Russo. Em um dos relatos o peregrino encontra um mestre espiritual que lhe ensina a orar e lhe apresenta a Filokalia[1].

Uma das ideias relacionadas com a oração incessante é a ideia da constante repetição da frase Kyrie Eleison, que é traduzida por “Senhor, tende piedade”. Esta é uma oração reduzida de Kyrie Iesous Christe, hye tou Theou, eleison hemas, que é traduzido por “Senhor Jesus Cristo, filho de Deus, tende piedade de mim, um pecador”.

Alguns dos textos da Filokalia defendem a prática de uma oração reduzida[2] e outros de orações discursivas. Cada um ensina segundo sua própria experiência e sabedoria. Assim, devemos buscar perceber por nós mesmos o que nos traz melhores resultados.

Como vemos também em alguns escritos da Filokalia, devemos escolher uma palavra[3] como Jesus, Cristo, Pai, Amor, Fé, Paz, etc., ou uma frase, ou uma oração, não importa tanto qual seja, desde que seja inspirada nas Sagradas Escrituras, desde que a palavra esteja de acordo com a natureza da oração. Deve-se então escolher uma posição confortável, respirar de forma tranquila e utilizar esta palavra, frase ou oração como apoio para sustentar a atenção em Deus[4].

Em todas as tradições religiosas encontramos práticas para desenvolver a concentração e tranquilizar a mente. Com a oração incessante, desenvolvemos a concentração, a tranquilidade,podemos agir de maneira mais analítica, refletida, deixamos de perder tempo com pensamentos inúteis ou maus, permanecemos em constante lembrança dos santos nomes de Deus e, com isso, ficamos constantemente voltados para dentro de nós mesmos.

Este é um processo lento e gradual. No início é necessário esforço, é preciso suplicar para que Deus nos ensine a orar, que nos dê devoção, fervor, mística, que nos ajude a lembrar Dele. Todo progresso se dá por graça divina.

Muitas vezes, a demora dos resultados não é compreendida. Acreditamos que decidimos, que queremos, e não entendemos porque nada acontece, mas as nossas primeiras decisões e desejos são ainda muito intelectuais. É preciso muita paciência e persistência. Os resultados começam a surgir quando o coração começa a se purificar e passa a existir um desejo ardente pela reconciliação, “uma verdadeira fome e sede por aquilo que queremos”.

A lembrança de Deus nos mantém no momento presente. Estar no presente é estar em conexão com Deus, com a Mãe Divina. Devemos lembrar de Deus de forma constante. É o fogo constante que faz a água ferver, se ligamos e desligamos o fogo a todo tempo, a água nunca ferverá. Estaremos com Deus sempre que prestarmos culto a Deus. Quem busca a Deus de forma constante, pouco a pouco, vai alcançando resultados. A lembrança de Deus é a contemplação de Deus. A verdadeira lembrança de Deus traz regozijo.

Muitos são os momentos de nosso dia-a-dia que podemos utilizar como marcos para nos lembrarmos de Deus. Podemos orar antes e depois das refeições. Podemos orar antes de dormir e ao despertar pela manhã. Podemos sempre pedir para sermos dirigidos. Podemos orar sempre que iniciar uma tarefa, uma conversa.

A oração incessante é o viver místico, é um estilo de vida, é um viver poético. Quando a devoção é condicionada a momentos específicos, ficamos entregues as coisas do mundo no restante do tempo. Quando no dia-a-dia a oração é esquecida, nós nos distanciamos de Deus, perdemos a interiorização e, assim, fica mais difícil conseguirmos sentir a devoção nos momentos que reservamos para orações. A oração deve ser constante, incondicional. Além do horário reservado, devemos fazer frequentes orações, ainda que breves. A oração é feita no íntimo do coração de cada um de nós, não é dependente de condições, de lugares específicos.

Disse Elias[5], o Presbítero: “É preciso lembrar-se de Deus em todo tempo, em todo lugar e em todas as coisas. Se fabricas alguma coisa, deves pensar no Criador de tudo o que existe; se vês a luz do dia, lembra-te Daquele que criou a luz para ti; se olhas o céu, a terra e o mar e tudo o que eles contêm, admira, glorifica Aquele que tudo criou; se te vestes com uma roupa, pensa Naquele de quem a recebeste e lhe agradece, a Ele que provê a tua existência. Em resumo, que todo movimento seja para ti um motivo para celebrar o Senhor: assim rezarás sem cessar e tua alma estará sempre alegre”.[6]

Nos períodos reservados para oração nós colhemos os frutos da conduta reta do dia-a-dia e agindo retamente oramos sem cessar. Santa Teresa de Ávila ensinava às suas filhas espirituais que não deveriam se sentir desconsoladas quando a obediência as ocupasse em coisas exteriores. Dizia ela: “…se for na cozinha sabei que o Senhor está no meio dos tachos…”[7].

Com a prática, aos poucos, a oração incessante nos levará a um estado de paz, tranquilidade, felicidade, satisfação, contentamento. Estes estados devem ser lembrados, revividos, pois nos ajudam a permanecer em contato com Deus.



[1] O termo Filokalia (grego) significa “amor ao bom” ou “amor ao belo”. A Filokalia é um compêndio de textos dos Padres do Deserto e mais tarde dos monges do monte Sinai e do monte Atos, que se basearam na tradição do deserto. A versão em grego foi publicada pela primeira vez em Veneza, em 1782. Uma outra obra com um título de igual significado e contendo praticamente os mesmos textos foi publicada para os povos eslavos em 1783 e reimpressa em 1822. É a esta versão eslava que o Peregrino Russo se refere. Depois surgiram publicações ampliadas. As publicações em idiomas ocidentais são baseadas nas versões em grego.

Vários destes textos que foram compilados na Filokalia eram famosos e circulavam no meio cristão tanto na época de São Francisco de Assis como na época de Santa Teresa de Ávila, que tinha carinho especial pelos textos de Cassiano, o Romano, que viveu por volta do ano 331.

[2] São Francisco de Assis fazia orações como “Meu Pai, Meu Deus!” constantemente.

[3] Este método que era utilizado pelos Padres do Deserto também foi resgatado pelos monges trapistas (ordem cristã) William Meninger, Thomas Keating e Basil Pennington, no meio do século XX. Estes monges a chamaram de “Oração Centrante”.

[4] O paralelo com os mantras das tradições orientais parece claro. Em verdade, não há diferenças, o objetivo dos mantras é o mesmo que o apresentado aqui. A palavra mantra significa ”controle da mente”. Outra prática que os místicos cristãos utilizavam era chamada de monologia, que consiste na repetição de uma oração de uma só palavra.

[5] Não há certeza sobre sua história, acredita-se que ele viveu no século XII, pois tudo o que se sabe é o que aparece nos seus manuscritos, que foram publicados na Filokalia e por isso chegaram a nossos dias.

[6] Jean Gouillard. Pequena Filocalia (p. 106)

[7] Santa Teresa de Ávila. Fundações 5:8.


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