Jardim dos Mestres

A Oração Mental

A tradição mística cristã fala de alguns tipos e graus de oração. Em seus livros, Santa Teresa de Ávila fala destes tipos e graus. Não foi a Santa que criou esta divisão em graus, alguns textos da Filokalia também falam sobre estes estágios da oração. Porém, certamente foi a primeira divisão ou classificação feita no ocidente e a forma como a Santa de Ávila escreve e as analogias que utiliza para transmitir sua mensagem são sublimes e, mais do que tudo, Santa Teresa fala a partir de sua própria vivência, de suas próprias experiências místicas. Sua obra é certamente uma referência sobre o assunto.

Em suas obras, a Santa fala de “oração vocal”[1], oração mental[2], oração de recolhimento, oração de quietude e oração de união.

Abordaremos os graus e tipos de oração para que se saiba que existe algo mais, algo além e para que cada um possa saber o que está ocorrendo consigo e, assim, seguir em frente sem ter medo.

A maioria das pessoas conhece apenas o primeiro tipo e contenta-se apenas com a repetição fria de uma receita. Contudo, as orações mecânicas, sem sentimento, sem devoção, têm pouca ou nenhuma força e assim trazem pouco ou nenhum resultado. A simples repetição não pode nos fazer devotos, transformar-nos ou iluminar-nos.

Desta forma, se não existir sentimentos ou se apenas ficarmos repetindo frases enquanto a mente fica vagando, pensando nas coisas da vida, compromissos, problemas, preocupações, não estaremos orando. Nos momentos de oração, devemos nos preocupar com as coisas do espírito. O tempo de Deus é para Deus. Haverá tempo depois para o trabalho e para as coisas da vida.

Para orar é preciso concentração, atenção no que se está fazendo. Para orar é preciso que a mente esteja toda voltada para oração; isto é a oração mental, base para se evoluir neste caminho de oração.

A oração mental não significa que não estejamos vocalizando uma oração. A diferença não está nisto e, sim, no que a mente está fazendo. Estar em oração mental é não querer outra coisa senão estar com Deus. Assim, não nos perdemos em distrações, pois não buscamos as coisas do mundo.

Uma oração como o Pai Nosso enunciada de forma ligeira e mecânica, como se estivéssemos com pressa de terminar uma tarefa, seja esta oração oral ou mental, não tem muito efeito. Entretanto, é poderosa se cada palavra for refletida, meditada, sentida profundamente em seu significado. Mestre Samael nos diz que um Pai Nosso bem feito dura cerca de uma hora; por aí, podemos perceber a diferença entre uma e outra.

Quando atingimos a oração mental, o coração devotado começa a falar maravilhas aos seus Bem Amados, tanto em verso  como em prosa. Lágrimas, súplicas inaudíveis, gratidão profunda e sem palavras, louvores indescritíveis; fala a alma e não a razão, ora-se “em espírito e em verdade”.

Quando alcançamos a oração, a razão, nossos defeitos, nossos demônios internos, nossos egos dizem que estamos sendo ridículos, questionam o que estamos fazendo, o que estamos dizendo. Não podemos nos identificar com estes pensamentos que surgem na mente, precisamos seguir adiante.

Nos primeiros níveis da oração mental, além de atenção e concentração, precisamos também de um pensamento dirigido e sustentado, precisamos controlar a imaginação, precisamos ter muita devoção e um profundo sentimento místico. É um processo volitivo.

Nestes primeiros níveis já se experimenta paz e felicidade, pode-se sentir uma certa bem aventurança. Ocorre também de se sentir um calor no coração e, por vezes, lágrimas de alegria, de gratidão escorrem pelo rosto sem que se saiba exatamente como isto ocorre.

As graças e consolações são dadas para que a alma, que é fraca, seja fortalecida. Estas graças e consolações devem ser sempre motivo para mais determinação e esforço em nossos trabalhos de purificação, de mortificação.

Porém, se fizermos nossas orações apenas buscando experiências e consolações, se não conseguirmos, sairemos da prática mal humorados e irritadiços. Devemos recebê-las se vierem, mas não podemos nos tornar dependentes destas consolações. Não podemos cair no erro de procurar mais sentir sensações do que reverência e louvor. A perfeição não está nos muitos fenômenos, sensações ou êxtases e, sim, na busca incessante de morrer em nós mesmos, desenvolver virtudes e agir cada vez mais retamente.

Existem pessoas que possuem facilidade de concentração e uma mente clara, um intelecto um pouco mais desenvolvido e desta forma, conseguem compreender as coisas com facilidade e, de uma coisa, compreendem várias outras. Estas pessoas têm facilidade em fazer orações discursivas. Contudo, existem passos da oração que a mente não pode alcançar, então o pensamento discursivo vai apenas atrapalhar, será um obstáculo para todos que têm o intelecto muito agudo.

A reflexão sobre nossos defeitos é uma forma de oração mental. A oração mental não se limita ao pensamento discursivo. Uma prática comum na tradição mística cristã é imaginar-se diante de Cristo e falar com Ele, apresentar nossas necessidades sem ficar raciocinando. Outra prática consiste em nos imaginarmos com o Cristo num dos passos da Paixão e então contemplarmos e sentirmos as grandes dores e penas que Ele passou Este é um bom método de oração. Algumas pessoas conseguem aproveitar muito se imaginando no inferno ou refletindo sobre a morte[3]. Outras encontram grande regozijo em contemplar o poder e a grandeza de Deus ou da Grande Mãe nas criaturas, na natureza e em todas as coisas[4].


[1] O termo “oração vocal” é explicado da mesma forma que o termo “oração mental”.

[2] O termo “oração mental” não foi criado por Santa Teresa de Ávila. Este termo já existia antes. Podemos encontrá-lo nos textos da Filokalia, nas obras lidas pela Santa como Subida del Monte Sión, de Bernardino de Laredo e Tercer Abecedario Espiritual, de Francisco de Osuña. Também encontramos o termo no livro Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis. Porém, o termo ganha maior importância com a obra de Santa Teresa, que fala de oração com o colorido, a beleza e a magia de suas experiências místicas e sua enorme devoção.

[3] No Budismo encontramos meditações onde, pela imaginação, se contempla a decomposição do corpo. É uma prática para eliminar a luxuria, desenvolver o desapego com relação ao corpo e perceber sua realidade. Não existe nada de mórbido nesta prática, pois a decomposição do corpo é algo natural. Porém, não gostamos de admitir isso e até preparamos os cadáveres, maquiando-os, arrumando-os em belos caixões com flores para parecerem mais aceitáveis. Esta é normalmente uma prática indica para pessoas com certo desenvolvimento intelectual e não é muito indicada para pessoas que são muito impressionáveis.

[4] Estudando a vida de São Francisco de Assis e de Santa Teresa de Ávila, vemos que os dois se regozijavam ao contemplar a natureza. Para São Francisco, todos os seres, todas as coisas da natureza eram irmãos e irmãs. Santa Teresa quando via algo belo na natureza dizia “bendito seja aquele que te criou”.


1   Respostas em A Oração Mental

  1. Dilma Gonçalves de Lima Giacomini disse:

    A dezesseis anos atrás comecei a meditar e orar, intuitivamente. Comecei a ter experiências espirituais e fiquei assustada .Procurei um padre e ele me disse que eu era mística , me indicou o livro de. Santa Tereza D’Avila, fiquei tão encantada e perdi o medo da oração mental. São tantas as experiências espirituais , que daria pra escrever um livro. Realmente a disciplina, o silêncio, a oração nos levam ao encontro de Deus dentro de nós. É um exercício diário, vai aumentando aos poucos gradativamente. Qdo estou concentrada meus sentidos desaparecem… Não escuto nenhum barulho …não sinto meu corpo… Minha mente se esvazia e então tenho visões e ouço grandes ensinamentos . É uma experiência que transcende qualquer conhecimento religioso.

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