Jardim dos Mestres

Atenção Plena ou Auto-observação

Ninguém muda nada em si mesmo, em seu comportamento, em sua maneira de ser, se não perceber que algo está errado, que algo pode ser corrigido, refinado, melhorado. E é somente a auto-observação do que ocorre dentro e fora de nós mesmos que possibilita esta percepção. Se implementarmos isso em nossas vidas, nos tornaremos um objeto de estudo para nós mesmos. Com a auto-observação vamos nos conhecendo e nos familiarizando conosco.

Infelizmente, nossa capacidade de auto-observação está atualmente atrofiada, já que vivemos olhando para fora, projetando e fantasiando, julgando e criticando os demais. Mas esta habilidade pode ser recuperada e desenvolvida pela prática constante.

Em capítulos anteriores, falamos de atenção zero, atraída e dirigida. Atualmente, nossa atenção é zero, é dispersa, mas para mantermos a auto-observação, precisamos dirigir e sustentar a atenção, e para tanto precisamos desenvolver a concentração. A capacidade de concentrar-se é necessária para a auto-observação. Para desenvolvermos a concentração e a auto-observação precisamos ter uma forte intenção de manter a atenção.

Para nos conhecermos precisamos nos auto-observar e investigar nossas reações, identificações, projeções, lembranças, hábitos, condicionamentos, gostos e desgostos, desejos e rejeições, observar o que ocorre em nosso coração e em nossa mente no momento presente, de instante em instante. Nenhum evento é inútil, nenhuma situação deve ser desprezada, nada deve passar despercebido ou não observado. Todas as situações podem ser aproveitadas para aprendermos mais sobre nós mesmos. Todo nosso tempo pode ser aplicado nesse objetivo.

Na vida diária, no convívio com a família, no trabalho ou na escola, no trânsito ou na condução, no relacionamento com as pessoas, se estivermos atentos, veremos nossos defeitos se manifestando, e então podemos analisá-los, a fim de compreendê-los e eliminá-los.

Para conseguirmos eliminar nossos defeitos, precisamos aprender a conhecê-los, a detectá-los. Os defeitos precisam ser percebidos quando eles ocorrem. Uma coisa é analisar o que foi percebido, e outra, muito diferente, é tentar perceber depois. Depois que a situação passou, a nossa percepção é completamente diferente, nossa mente já está convencida com suas histórias, os fatos já estão distorcidos.

No Budismo, a auto-observação é chamada de atenção plena. Os quatro fundamentos da atenção plena são: o corpo, a mente e estados mentais, as sensações e as ideias da doutrina.

Como nos ensina Mestre Samael, para desenvolvermos a capacidade de auto-observação devemos utilizar a chave SOL, que é a divisão da atenção em sujeito, objeto e lugar. De uma maneira muito simplista, podemos dizer aqui que o sujeito somos nós, o objeto é o que estamos fazendo e o lugar é o espaço em que nos inserimos. Mas aprofundemo-nos passo a passo.

No sujeito, em nós mesmos, vamos observar os pensamentos, sentimentos, emoções, sensações, estados, gestos, posturas. Quanto ao objeto, vamos observar o que estamos fazendo, observar qual o objetivo, qual a intenção, vamos colocar atenção, vamos nos concentrar no que estamos fazendo, mas sem nos esquecermos de nós mesmos. E, no que se refere ao lugar, vamos observar o contexto em que estamos inseridos, o contexto em que nosso personagem está atuando, observar cada lugar como se fosse a primeira vez.

Auto-observar-se não é ser cuidadoso ou esperto, não é criar tensões para evitar erros, nem perturbar-se com emoções e sensações, não é fugir das situações. Observar não é interpretar, analisar, comparar, julgar, aceitar ou rejeitar. É perceber, contemplar, experienciar, vivenciar. Quando tentamos explicar a experiência, conceituar o que estamos observando, acabamos nos distraindo, perdemos o estado de observação, perdemos a experiência. Observar é ter consciência da situação de forma objetiva, sem projeções, sem subjetividade, sem histórias da mente, é perceber as situações como elas são. Contemplação é um estado em que não há atividade dualista. Auto-observar-se é estar presente.

No início, como não estamos acostumados a nos auto-observar, os detalhes nos escapam. Mas a auto-observação se desenvolverá gradativamente, desde que tenhamos disciplina e persistência, desde que tenhamos interesse em nos conhecermos, em nos purificarmos, desde que tenhamos interesse nas situações e no despertar. Conforme desenvolvemos a atenção e a capacidade de auto-observação nos tornamos mais sensíveis e perceptivos.

Devemos começar aos poucos, no início não adianta querer prestar atenção em tudo, pois aí não prestaremos atenção em nada. Com a prática, o estado de observação começará a penetrar o sono.

Comecemos por observar o sujeito, a nós mesmos, e depois passemos aos demais passos. Na observação de nós mesmos, precisamos de certo distanciamento, que é a desidentificação, ou seja, para nos auto-observarmos, precisamos nos desidentificar de nós mesmos.

Não devemos nos identificar com as coisas, pois a identificação leva à fascinação, atrapalha ou impede a observação, nubla a mente. Identificados, não temos uma visão clara do que está ocorrendo. Ao avançarmos na prática da chave SOL, não devemos nos identificar com o objeto e nem com o lugar.

Com a auto-observação, aprendemos a lidar com as situações serenamente, sem nos identificarmos. A atenção plena nos leva a agir com generosidade, amor, bondade, sabedoria, compaixão, equanimidade e alegria altruísta. Se não estamos agindo desta forma, não estamos com atenção plena.

Na auto-observação precisamos ser exigentes conosco, mas sem culpa, sem repressão. Culpar-se é apegar-se à derrota. A auto-observação deve conter um certo contentamento.

Auto-observação sem reflexão e sem uma doutrina pode até contribuir para aumentar as travas que nos prendem. Auto-observação sem sabedoria é como estar dentro de um carro desgovernado, a mente é arrastada por todos os desejos e aversões.

Quando nos observamos em um estado equivocado, ou sentindo emoções negativas, precisamos entender que estamos percebendo pelo condicionamento, que estamos interpretando mal as situações ou interpretando-as de forma não hábil, não virtuosa, que não estamos percebendo segundo a doutrina, segundo a impermanência, pois tudo passa, tudo passa.

É importante lembrarmo-nos da doutrina e de tudo que compreendemos em meditação. Isso é memória trabalho, que deve estar viva em nós para que possamos aplicá-la às percepções e compreensões nos momentos necessários.


20 de janeiro de 2013

0   Respostas em Atenção Plena ou Auto-observação

Deixe sua mensagem

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *