Jardim dos Mestres

Como Construir as Bases

Normalmente acreditamos que temos concentração, mas a realidade é que nossas mentes são dispersas e descontroladas. Se tentarmos colocar em prática algumas ações, como contar as respirações ou observar o ponteiro de um relógio, logo iremos perceber que não temos a capacidade de concentração que acreditávamos ter.

Em todas as tradições religiosas podemos encontrar práticas para desenvolver a concentração e tranquilizar a mente. No Cristianismo, a atenção é chamada de vigilância. É com grande intensidade que os Santos Padres[1] falam da importância da atenção e da concentração. A atenção plena é enfatizada em quase todos os discursos de Buda.

Concentrar é dirigir a atenção para algo, para um pensamento, uma cena, imagem, ação ou paisagem. Aplicar a atenção é o mesmo que dirigir a atenção.

Distrair é ter a atenção fragmentada, dispersa, vaga, sem foco, sem objetivo. A capacidade de concentrar-se é a capacidade de dirigir e sustentar a atenção. Os maus pensamentos surgem quando a atenção é negligenciada, quando os esforços para sustentar a atenção são afrouxados, quando deixamos as coisas correrem soltas. Ao nos tornarmos distraídos, ficamos sem guarda contra os maus pensamentos, contra as emoções negativas.

A atenção pode ser dividida em três estados: atenção zero, atenção atraída e atenção direcionada. Ela é zero quando não se volta para nada, quando estamos divagando. É atraída quando não é consciente, volitiva. E é direcionada quando, pela vontade e de forma consciente, é dirigida e sustentada; isso é também chamado de atenção correta. Quando dirigida de forma consciente, mas não sustentada, a atenção passa então a ser atraída, e já não é mais atenção correta. A leitura é um bom exemplo, algumas vezes começamos a ler algo com atenção dirigida e, num momento qualquer, esta atenção torna-se atraída. Continuamos a ler, mas já não temos consciência de que estamos lendo. Então, depois de uns tantos parágrafos, nos damos conta de que lemos um bom tanto sem entender absolutamente nada e sem lembrar o que foi lido.

A atenção também pode ser dividida em: completamente dispersa; vaga; vacilante entre firmeza de pensamento e desatenção; sustentada; totalmente controlada. Pode vagar tanto externamente, observando através dos sentidos, quanto internamente, observando o material da mente.

Meditação é um estado constante de atenção. Portanto, a atenção dirigida é a base da meditação. Não é possível meditar sem ter concentração.

Alguns fenômenos, percepções internas, como a visão de luzes, cores, sentir estar maior, são sinais de que a concentração está se desenvolvendo. Entretanto, os fenômenos não são o objetivo. Cada prática tem o seu objetivo, e o que foge ao objetivo de uma prática específica é distração. Desta forma, se seguir um caminho espiritual é um objetivo, então a busca de poderes, visões, fenômenos, é uma distração, uma vez que estas buscas não fazem parte do objetivo.

A concentração deve ser lembrada e praticada no dia-a-dia, não pode ser negligenciada. Precisamos estar sempre concentrados no objetivo da ação, qualquer coisa que fuja do objetivo da ação é distração. Podemos e devemos praticar a concentração constantemente, sempre com um certo grau de contentamento. Se nos esforçarmos para desenvolver a concentração, então um dia lograremos eliminar a distração.

Muitas vezes, a concentração pode ser confundida com tensão. Pode até acontecer de, no início, haver alguma tensão, já que não estamos acostumados a permanecer concentrados. Mas concentração não é tensão, não é necessário enrijecer partes do corpo para conseguir ter atenção ou mantê-la.

A concentração é a atenção dirigida pela vontade e não pela força. No início, pode demandar um certo esforço, por causa de nossa falta de habilidade, o que é comum e costuma ocorrer nas mais diversas áreas. Os iniciantes normalmente precisam se esforçar muito para fazer o que os experientes fazem com naturalidade e fluidez.

Quando alguém está começando a dirigir automóveis, normalmente fica tenso, rígido, segura o volante com força, mas com o tempo e a prática a pessoa aprende a manter a atenção e dirigir o automóvel sem tensão.

A distração é muitas vezes associada ao divertimento e ao prazer. Passamos o tempo todo muito tensos, e é comum dizermos que vamos fazer uma atividade para nos distrair, como se em algum momento houvéssemos ficado concentrados. A distração leva ao embotamento, ao entorpecimento da mente, ao duelo das antíteses, às dúvidas, aos diálogos mentais, que tantos tormentos nos trazem.

O insight, a intuição, a compreensão, a revelação divina, só surge quando estamos atentos, concentrados. A concentração nos permite perceber mais claramente o funcionamento da mente, por isso é pré-requisito para a compreensão.

Uma mente sem treinamento tende a contar histórias e gerar sofrimento. Contudo, não devemos utilizar a concentração para fugir das situações.

A concentração pode nos levar ao controle da mente, à estabilidade da mente. Uma mente controlada, estável, nos traz paz, felicidade, tranquilidade. Quando estes estados forem alcançados a mente não vai mais querer se dispersar com tanta facilidade.

É comum, quando somos iniciantes, desprezarmos o desenvolvimento da concentração e desejarmos as práticas avançadas sem termos construído as bases. Queremos meditar, queremos experiências, fenômenos. Talvez isso ocorra por acharmos que a concentração é pouco interessante, sem importância, por a vermos como algo tedioso. Porém, é a concentração que vai nos levar à meditação, à paz, felicidade, tranquilidade.

Também o comportamento correto está baseado na concentração. Quando estamos atentos, podemos cometer menos erros e também podemos observar os erros que cometemos para podermos nos corrigir, nos purificar.

Desta forma, verificamos que a concentração é um ponto fundamental a ser considerado, é uma base a ser desenvolvida com apreço, pois vai sustentar todo o nosso trabalho espiritual.

Conforme for se desenvolvendo, a crescente capacidade de concentração deverá ser aplicada nas demais práticas. A prática da concentração é muito importante para todos, mas principalmente para os iniciantes.


[1] Os Santos Padres são os Padres do Deserto, que foram os eremitas (aqueles que vivem uma vida retirada e isolada) e cenobitas (aqueles que vivem uma vida retirada, mas em comunidade e seguindo uma regra) que a partir do século IV se estabeleceram no deserto do Egito. As tradições monásticas cristãs têm origem nas comunidades organizadas por estes eremitas e cenobitas.


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