Jardim dos Mestres

O Eterno Presente

A auto-observação só é possível no momento presente. Porém, sempre vivemos ou no passado ou no futuro, sempre com lembranças, querendo reviver ou evitar sensações do passado, ou com projeções para um futuro, criando expectativas, fazendo planos, fantasiando, sempre com as perspectivas voltadas para algo melhor que possa vir a acontecer, ser obtido, conquistado no futuro, como se isso contivesse as habilidades inerentes de nos trazer paz e felicidade. Assim nunca existe satisfação, contentamento, gratidão.

Se mudarmos nosso modo de pensar e nos tornarmos atentos para o que acontece no momento presente, talvez podemos encontrar algo que nos satisfaça. Mas, como estamos buscando algo no futuro, algo que ainda não existe, algo mais perfeito, mais maravilhoso, mais prazeroso, não encontramos nada. Estar no presente é observar o que está diante de nós, sem julgar, sem desejar ou rejeitar, sem aumentar ou diminuir, sem intelectualizar ou analisar.

Existe um conto do Zen Budismo que ilustra muito bem este contexto, e cabe ser aqui reproduzido.

Um monge perguntou ao mestre: “Qual o significado do Dharma-Buddha?”

O mestre apontou e disse: “O cipreste no jardim.”

O monge ficou irritado e disse: “Não, não! Não use parábolas aludindo a coisas concretas! Quero uma explicação intelectual e clara do termo!”

“Então eu não vou usar nada concreto, e serei intelectualmente claro,” disse o mestre.

O monge esperou um pouco, e vendo que o mestre não iria continuar fez a mesma pergunta: “Então? Qual o significado de Dharma-Buddha?”

O mestre apontou e disse: “O cipreste no jardim.”

O presente é o simples, o real, é o que é. É o novo de cada momento, pois tudo é impermanente, tudo está em constante mudança, surgindo, permanecendo e cessando. Somente no momento presente podemos conhecer a genuína paz, a genuína felicidade. Não há nenhum passado a ser evitado e nem revivido, não há nenhum evento futuro a ser buscado ou evitado, não existem condições a serem preenchidas. Não há nada a temer ou com que se preocupar, não há nenhum outro lugar para ir e nada a fazer, tudo acontece em nosso íntimo.

Como foi dito anteriormente, somente a concentração pode nos levar à paz e felicidade. A distração pode apenas nos trazer alguns prazeres efêmeros. A concentração nos mantém no momento presente. Atenção plena é igual a estar presente.

Se estivermos nos auto-observando, estaremos mantendo o foco no presente, não deixaremos nossa mente vagar por passados e futuros, não deixaremos nossa imaginação perdida, fantasiando mil e uma coisas. Assim, a mente não estará criando sofrimentos, falsas expectativas, preocupações.

Se nos mantivermos plenamente atentos para o que nos acontece, poderemos perceber que nada falta, que não há nada a ser buscado, então todos os nossos esforços serão direcionados para nos mantermos no momento presente, pois é nele, e somente nele, que residem as possibilidades de percepção de nós mesmos, de nossos corações e mentes, as possibilidades de libertação, satisfação, contentamento.

Nossas mágoas e ressentimentos estão em nossos corações e mentes, não podemos escapar indo a diferentes lugares, fugir não é a solução. Não há lugar algum para ir, sempre estaremos com nossos corações e mentes.

O problema não está no mundo, não podemos acreditar que o mundo precisa ser corrigido. Não devemos acreditar que se os problemas do mundo fossem todos resolvidos, seríamos felizes.

É certo que as situações nem sempre serão boas, agradáveis, favoráveis. Mas isso não importa, precisamos aceitar as coisas como são, sem desejar que fossem diferentes. As situações são como são, é a mente que julga, conta histórias e gera problemas. Nada falta.


12 de fevereiro de 2013

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